Cultura

Preto e branco Cores do passado

Adriana Fricelli
| Tempo de leitura: 3 min

Primeiro foram os LPs, depois os VHS e, por fim, a fotografia analógica que, no mundo digital, tendem a se tornar relíquias para colecionadores. No campo da fotografia, o fenômeno tornou-se evidente com o fechamento da fábrica de papel fotográfico da Kodak em 2005, que repercutiu no Brasil todo como em Bauru, onde não há mais lojas que trabalham com o material.

Diante da dificuldade de recursos para revelação manual, profissionais foram obrigados a aderir às novas tecnologias e abandonar gradativamente toda a beleza e profundidade das fotos em preto e branco. “Vi que não havia como permanecer no mercado com a fotografia analógica. Foi uma passagem natural pela qual fui obrigado a passar”, diz o professor e fotógrafo Olício Carlos Pelosi, que mantém em sua casa um laboratório para uso pessoal.

O professor e também fotógrafo Frank Simões passou por processo semelhante. “Desde o ano passado, é difícil encontrar papel fotográfico. Em Bauru não é mais vendido e, quando chega em São Paulo, acaba rapidamente”, coloca Simões, que ainda cita o custo elevado do material. “Um pacote com 50 folhas de 30 por 40 centímetos custa aproximadamente R$ 300,00”.

Na visão dos fotógrafos, com o processo de revelação e ampliação praticamente extintos pelo advento da máquina digital, perde-se uma etapa importante do aprendizado. “Para aprender fotografia, é preciso conhecer luz, contraste, e isso só é viável por meio da fotografia em preto e branco. Por mais que seja possível converter as cores na digital, perde-se em qualidade”, afirma Simões.

Sobre a queda da qualidade das fotografias digitais , Pelosi cita o processo de ampliação como maior empecilho. “Ao passar as fotos para uma impressora, perde-se muito, porque dificilmente os laboratórios usam papéis com as nove gradações de tons de cinza”.

Além de trabalhar com a luz, o processo de ampliação e revelação manual permite a utilização de recursos para refinar a foto. Com a digital, o processo é feito apenas por programas de computador. “Na verdade, esses recursos digitais cobrem deficiências da fotografia”, diz Pelosi.

Massificação

Com o lançamento comercial da máquina digital em 1990, houve a segunda massificação da fotografia. “Agora as pessoas produzem imagens o tempo todo, mas são todas muito iguais, como se houvesse apenas um ator. Perdeu-se a beleza, a qualidade, a plástica”, lamenta Pelosi.

De acordo com o professor, a primeira massificação ocorreu na década de 80 com a automatização dos equipamentos, que permitiu que os erros fotográficos fossem camuflados pelos laboratórios. “Foi uma iniciativa da indústria para ampliar o comércio de papel, o que realmente aconteceu. O aumento da produção de fotografia foi espantosa”, analisa Pelosi.

O fenômeno de digitalização da fotografia também está sendo sentido nas escolas e faculdades. Por conta da escassez de materiais, o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) encerrou no dia 24 de junho o curso de formação básica de fotografia, no qual os alunos aprendiam a manusear o equipamento manual, a revelar e ampliar as fotos. O curso foi substituído pelo de introdução à fotografia digital.

A direção das faculdades da cidade também analisam como mudar a grade curricular para contemplar a nova tecnologia. “Não há outra saída. Mas o maior problema é o constante avanço tecnológico. É preciso pensar um novo laboratório de forma que não fique desatualizado em pouco tempo”, coloca Pelosi.

Comentários

Comentários