Proprietários sem dinheiro, falta de incentivo do poder público. A união dos dois elementos pode ser fatal para um edifício com status de patrimônio histórico. Em Bauru, alguns desses imóveis correm risco de “tombar”, mas de uma maneira bem diferente daquela desejada pelos defensores da memória arquitetônica da cidade.
“Por mim, colocaria todo aquele prédio velho abaixo e construiria no lugar umas salas comerciais para alugar.” Este poderia ser o destino do Hotel Estoril, localizado na quadra 2 da Avenida Rodrigues Alves, nas palavras de Geraldo Ferreira, presidente da Sociedade Beneficente Portuguesa de Bauru, por sua vez, proprietária do imóvel.
“Mas agora está tombado e não dá para mexer em nada”, lamenta ele. O jeito é manter o velho empreendimento funcionando. “Pode até ser um hotel mixuruca, mas rende mais do que se estivesse fechado”, completa.
O Estoril é uma das últimas “testemunhas oculares” do período áureo da ferrovia em Bauru. “Os hotéis daquela região da cidade surgiram na década de 1920, para atender aos passageiros que desembarcavam na cidade”, conta Nilson Ghirardello, professor de arquitetura da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru.
Cobrando diárias de aproximadamente R$ 5,00, hoje é abrigo de ambulantes e aposentados. As instalações podem não ser das melhores, mas são capazes de causar inveja a outro imóvel tombado da vizinhança, o Hotel Milanez. Outrora local de repouso dos passageiros de primeira classe que chegavam à cidade, hoje é morada de teias de aranha, entulho e musgo.
O Estoril pode orgulhar-se ainda mais, quando confronta seu estado ao do finado Hotel Atlântico, da quadra 1 da Avenida Rodrigues Alves, que se consumiu nas chamas causadas, provavelmente, pelo cigarro de um hóspede, em abril de 2002. Aliviado por haver escapado ao fogo e ao abandono, o hotel sobrevive, apesar da decadência da região em que está situado.
Reformar é difícil. “A associação não tem dinheiro para gastar num prédio caindo aos pedaços”, garante Ferreira. Vender, impossível. “Quem vai querer uma construção que jamais poderá ser alterada ou demolida?”, completa.
Para ele, incentivos por parte do poder público, como isenção de parte do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) para os proprietários de bens tombados, poderiam facilitar a tarefa de manutenção desses locais. “É muito caro preservar um prédio antigo. Com apoio, talvez fosse possível reformar”, acredita.
Segundo Henrique Perazzi de Aquino, presidente do Condepac, há estudos para projetos de apoio à preservação de prédios tombados, como o abatimento de parte do IPTU desses imóveis, por exemplo. “Mas esse tipo de decisão costuma demorar”, lembra.
Dinheiro direto da prefeitura para conservação de locais históricos é algo fora de cogitação. “A prefeitura não pode investir em imóveis privados”, diz Maria Helena Rigitano, coordenadora do Plano Diretor de Bauru.
Um caso raro em que o poder público assumiu a conservação de um bem particular tombado foi o de duas casas geminadas, localizadas na quadra 2 da Rua Araújo Leite. Consideradas remanescentes da ocupação inicial da cidade, os prédios abrigarão, no futuro, a “casa do pioneiro”, uma espécie de memorial sobre os primeiros moradores de Bauru. “Basta que termine o processo de desapropriação para que o projeto avance”, garante Aquino.
Açoitados pela força do tempo, os imóveis tombados de Bauru também resistem à pressão das polêmicas. Indignação por parte dos proprietários, divergências quanto ao real valor histórico e cultural dos locais a serem conservados. Em meio a tantas batalhas, os prédios “sobreviventes” lutam para continuar contando histórias aos que ainda estão por vir.