As semelhanças entre a realidade e “Páginas da Vida” não são meras coincidências. Manoel Carlos, autor da novela que estréia na próxima segunda, consagrou-se por mostrar na televisão a vida como ela é. São do escritor tramas como “Por Amor” (1997), “Laços de Família” (2000) e “Mulheres Apaixonadas” (2003), algumas das maiores audiências do horário nobre da Globo.
Maneco, como é chamado pelos amigos, escancara o estilo de sucesso logo na trama central: o triângulo amoroso formado pela protagonista, Helena (Regina Duarte), com Gregório (José Mayer) e Diogo (Marcos Paulo). Afinal, é difícil não conhecer, ou ter vivido, uma decepção amorosa.
Quem dirá chorar as mágoas no ombro de um ex-amor. No folhetim, a médica obstetra Helena, após descobrir a traição do marido, Greg, vai procurar consolo nos braços do namorado dos tempos da faculdade, Diogo.
Madura e bem-sucedida profissionalmente, ela é parecida com a telespectadora ou com alguém próximo a ela, que descobre que a paixão “pós-adolescência” pode ser boa. E os encontros e desencontros amorosos não serão os únicos exemplos de realidade mostrados por Maneco. Temas atuais - ou polêmicos, como algumas pessoas preferem chamar - como a violência, também estarão em cena.
O bairro do Leblon, no Rio, cenário da novela, será vitimado por um arrastão. Antes mesmo de ir ao ar, a seqüência de cenas deu o que falar. Autoridades cariocas reclamaram que Maneco supervalorizou o tema.
Mas o autor, que trata de assuntos delicados com desenvoltura na TV, prefere não se aprofundar no assunto fora das telas. “Não explicaram para o prefeito (César Maia) que a violência da novela acontece em 2001, ano em que os arrastões existiram no Rio de Janeiro”, diz.
Centro das discussões
O alcoolismo, tema freqüente no cotidiano e nos folhetins do novelista - os personagens Orestes (Paulo José), de “Por Amor” (1997), e Santana (Vera Holtz), de “Mulheres Apaixonadas” (2003), levaram o assunto ao centro das discussões - também aparecerá.
Em “Páginas da Vida”, o competente médico infectologista Diogo (Marcos Paulo) joga tudo para o alto a partir do momento em que toma a primeira dose. Aids e bulimia também estão na lista de problemas que vão tirar o sossego de outras figuras importantes da trama.
Apesar do currículo repleto de novelas de sucessos, será que Maneco não teme que as mais duras das realidades possam assustar, e até afastar o telespectador?
O autor diz que não. “Felicidade não dá ibope, digo sempre isso”, afirma, cheio de convicção. Laurindo Leal Filho, sociólogo e professor da Escola de Comunicação e Artes da USP (ECA), afirma que, com tal estratégia, o escritor pisa em um terreno perigoso.
“É importante mostrar a realidade como ela é, mas é preciso ter cuidado para não glamourizar os problemas ou criar polêmicas sem propor uma séria discussão sobre os temas. Alguns casos precisam ser mostrados e explicados, e, geralmente, as novelas não têm espaço para isso”, diz. “Mas Manoel Carlos é talentoso, acredito que terá cuidado com essa armadilha”, completa o pesquisador.