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Até a próxima crise...


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Roberto Rodrigues foi um dos melhores e mais competentes ministros da Agricultura que o Brasil já teve. Sua saída do governo semana passada será sentida por todos os setores do agronegócio. Fará falta ao país e ao próprio governo Lula, que o chamou para trabalhar num momento de inspiração. Ele chegou no ministério com a produção no auge em 2002/2003 e lutou bravamente para evitar a crise (mais que todos, prenunciada por ele) que chegou finalmente em 2005/2006. Começou com problemas climáticos, uma seca devastadora no sul. Mas esta é grave crise produzida, na verdade, em razão da flutuação muito grande do dólar, que foi tirando dos agricultores a menor possibilidade de retorno razoável para a produção do campo.

Sem renda e endividada, a agricultura está se ajustando à crise da maneira mais dolorosa possível, que é a perda de valor do patrimônio. Como acontece geralmente entre nós, quem se mata de produzir é obrigado a reduzir ou se desfazer de seu patrimônio para poder se livrar das dívidas e voltar ao trabalho... até a próxima crise olhada com certa indiferença pelos governos. O engenheiro agrônomo Roberto Rodrigues, homem de tradição e líder respeitado no meio rural , percebeu que esta é a mais grave crise que já se abateu sobre nossa agricultura desde os malfeitos da “âncora cambial”. Ele foi embora porque não encontrou no seu governo a disposição suficiente nem a firmeza necessária para evitá-la.

A safra 2005/2006 que estamos vivendo vai terminar com um déficit dos agricultores da ordem de R$ 25 bilhões , para um faturamento esperado de R$ 50 bilhões. Quer dizer, tem um nível de endividamento que é insustentável diante das taxas de juro vigentes. Ninguém deve imaginar que isso não vá ter conseqüências nas safras futuras: já vai acontecer na próxima safra 2006/2007 e só não haverá redução maior do plantio e da produção porque o agricultor-herói não perde aquele sentimento telúrico que o faz plantar porque sabe que Deus não quer que ele deixe a terra nua.

No primeiro mandato de FHC a âncora cambial e os altos juros arrasaram a agricultura. Ela se recuperou a partir de 2001/2002, mas a sobrevalorização do real, sustentada pelo diferencial de juros internos e externos (nós continuamos com a segunda taxa de juro mais alta do mundo), está repetindo a tragédia. Esse câmbio se deve ao fato de que a taxa de juro real interna é muito mais elevada que a taxa de juro externa. Pode se imaginar a mágica que quiser com o câmbio. Se não mudar a curva dos juros, o custo continuará enorme (inutilmente) para a economia e simplesmente insustentável para o setor que alimenta o Brasil.

O autor, Antonio Delfim Netto, é deputado federal pelo PMDB-SP, professor emérito da USP. E-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br

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