Quando conheci Dante de Oliveira, éramos dois jovens deputados pelo histórico Movimento Democrático Brasileiro (MDB). No primeiro mandato de deputado federal eu chamava a atenção pelos discursos contundentes contra a ditadura e ele, Dante, deputado estadual pelo antigo Mato Grosso, freqüentava nossas reuniões em São Paulo e regalava-se com aquele clima de contestação. Nossa Capital era o centro da resistência ao Regime e constituía-se no cerne da luta pelas liberdades democráticas. Ulysses, Montoro e Freitas Nobre, políticos forjados em nosso Estado, ao lado de alguns gaúchos e pernambucanos, eram as lideranças maiores do MDB no Congresso Nacional.
O Dante, quando vinha a São Paulo para eventos políticos, quase sempre dormia em um modesto apartamento que eu desfrutava na rua Nestor Pestana. Não foram poucas as vezes que dormiu em colchão sobre o chão dada a lotação do local. Seu entusiasmo era tanto que chegou a afirmar que o general Euler Bentes, candidato do MDB no Colégio Eleitoral, derrotaria o general Figueiredo, da Arena. Certa vez, quando o bipartidarismo havia sido riscado do mapa pelos generais, vaticinou que seria deputado federal já nas eleições seguintes, em 1982. Apuração concluída, desejo realizado, rumou para São Paulo a fim de integrar-se à vanguarda da epopéia que se desenhava, na ocasião reforçada com a eleição de Montoro para o governo do Estado. Em janeiro de 1983, antes da posse, Montoro reuniu os deputados eleitos pelo MDB paulista no clube da Cigarra, em São Sebastião, litoral norte, para debater a situação e lá estava o Dante de Oliveira. Alto, magro, sonhador, parecia acreditar em Papai Noel. Após três dias de discussões sobre a estratégia de como enfrentar o Regime, aparece o Dante com um projeto de Emenda Constitucional estabelecendo eleições diretas para a Presidência da República. A proposta era tão simples que se não me falha a memória tinha dois artigos, um que determinava a escolha do presidente pelo voto direto e secreto, e o segundo que revogava as disposições em contrário. As justificativas tinham a objetividade dos artigos, não mais que meia-dúzia de linhas, algo como “todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos...” (Parágrafo único, art. 1º, CF). Naquele dia, Dante ouviu considerações sérias sobre sua proposta que no entendimento de todos teria o mesmo destino de outras tantas, as gavetas das comissões técnicas. O objetivo que se desejava só seria possível produto de negociação com os detentores do Poder, como ocorria na Espanha através do invejado Pacto de Moncloa. Mas, ele foi em frente e um dia depois da posse, já com assinaturas suficientes colhidas na véspera, pomposamente leu sua propositura no Plenário do Congresso, dando entrada para a normal tramitação da matéria.
O ano de 1983 foi de muitos ensaios para o retorno à democracia. O general Figueiredo, com discursos polêmicos e comprometido com a abertura “lenta e gradual” de seu antecessor, dava mostras da pressão que sofria da linha dura castrense. Atentados com bombas em bancas de jornal desaguariam no episódio do Riocentro, expondo a fratura que havia dentro do Regime. No final daquele ano uma delegação de deputados e senadores, a convite da então União Soviética iria à Moscou e Dante não estava incluído. Membro do grupo, intercedi a seu favor, que acabou incluído devido à desistência de alguém. Saímos no início de dezembro de 83 e a tão sonhada emenda habitava uma gaveta qualquer, esquecida por todos, até pelo autor. Voltamos 22 dias depois e Ulysses, nesse período, escolheu, dentre outras tantas emendas existentes, a do Dante por ser a mais simples e objetiva possível. O mote da luta pela redemocratização do País estava ungido. Em menos de um mês Dante se transformaria no político mais conhecido do Brasil. A Emenda Dante de Oliveira, sinônimo de eleições diretas para presidente, era cantada em prosa e verso no primeiro comício das Diretas Já, no dia 25 de janeiro de 1984, na Praça da Sé em São Paulo, perante 100 mil pessoas. Estava aberta a campanha que levaria milhões as ruas, transformaria o País e embasaria toda a vida política do sempre, com todo respeito, “meninão" Dante de Oliveira. Que Deus o tenha.
O autor, Tidei de Lima, foi deputado federal 78/82/86/90, secretário estadual da Agricultura 87/88 e prefeito de Bauru 93/96