Para boa parte das pessoas, sobretudo as acostumadas ao padrão de vida de classe alta, o período de férias significa viagens familiares, sessões de cinema e crianças sentadas durante horas na frente de computador ou videogame.
Mas nos bairros periféricos, onde a renda das famílias é curta e maioria dos pais trabalha em julho, o leque de opções para o período é reduzido. No Núcleo Nova Bauru, zona norte da cidade, a oferta de lazer resume-se a dois campos de futebol.
Um deles, localizado na altura da rua 2, consiste em duas traves de bambu fixadas em um pasto. O chão de terra batida é constantemente amaciado pelas vacas que dormem no local. Há excrementos de animais pelo chão e as crianças precisam atravessar uma cerca de arame farpado para chegar até o campo.
“Não gosto muito que meus filhos brinquem lá, pois acho perigoso. Mas o bairro não tem lugares para eles se divertirem. É melhor que fiquem lá do que trancados em casa”, diz Irene da Silva, mãe de Gabriel, 8 anos, que costuma brincar no “campinho”.
Apesar das vacas, Silva considera o pasto mais seguro que a rua. “Lá não há carros”, lembra. Brincadeiras perigosas são rotina em bairros periféricos como o Nova Bauru.
Na rua 2 do núcleo, três irmãos faziam uma fogueira no meio da rua, usando móveis quebrados e pedaços de madeira, na última segunda-feira. O mais velho, com 12 anos, tinha uma espécie de tubo nas mãos, feito com latas usadas de tinner e óleo de soja. No fundo do vasilhame, álcool líquido. O nome da brincadeira: canhão ou bazuca.
“A gente coloca o álcool no fundo da lata, esquenta na fogueira e deixa até fazer um barulho de explosão”, explica, com os olhos vermelhos de fumaça. O risco de queimaduras não assustava as crianças, nem mesmo o mais novo, de 6 anos. “Não tem perigo, não”, garantia.
Apesar de estarem em frente à casa onde moram, nenhum adulto apareceu para impedir que a brincadeira prosseguisse. A madeira, o fósforo e o álcool usados eram provenientes da residência dos irmãos. Pipas também representam risco no período de férias, sobretudo para crianças que não dispõem de um pasto nas proximidades de casa. Na Vila São Paulo, dois garotos empinavam “papagaio” debaixo de uma torre de transmissão de energia.
A tensão nos cabos pode chegar a 138 mil volts, segundo João Marques Rodrigues, gerente de operações de campo da Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL). “O contato de uma pipa com essas torres seria fatal”, afirma. Para se ter uma comparação, a cadeira elétrica (forma de execução penal usada em alguns estados norte-americanos) opera com uma tensão de “apenas” 20 mil volts.
O perigo das pipas nem sempre está no ato de empinar. A própria confecção do brinquedo oferece riscos, sobretudo a colocação de cerol, que envolve o uso cacos de vidro e fogo. Lâmpadas fluorescentes estão entre as prediletas para a fabricação da substância. “O pó delas é mais fino e dá um cerol melhor”, garante um garoto de 10 anos da Vila São Paulo.
Algumas vezes, os riscos das brincadeiras até parecem calculados. No Parque Santa Edwirges, zona noroeste de Bauru, futebol e pipa disputam popularidade com uma diversão inusitada, envolvendo os animais de propriedade dos catadores de papel que vivem no bairro.
“A gente corre atrás dos cavalos e burros, segura no rabo deles e tenta montar”, conta um menino de 13 anos, que vive no lugar. Como se lembrassem as palavras de um antigo ditado, as crianças garantem não temer os riscos diversão. “O coice desses burros não machuca”, afirma o garoto.