Não são apenas os conflitos conjugais ou a perda de uma pessoa querida, por exemplo, que podem desencadear um episódio de depressão. A pressão no ambiente de trabalho também pode. Só entre outubro do ano passado e junho deste ano, o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) realizou 440 perícias para identificar o mal entre funcionários.
De acordo com Osvaldo Gradella Júnior, doutor em educação e professor do departamento de psicologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), as doenças mentais atualmente ocupam o terceiro lugar no ranking dos afastamentos no País.
”O nível de sofrimento é muito grande do ponto de vista do trabalho. Essas estruturas ditas modernas, a flexibilização, esse discurso de que o sujeito é dono da sua produção, tudo isso é uma falácia do ponto de vista do ganho, que gera adoecimento”, avalia.
Na opinião dele, a incidência de casos aumentará na mesma proporção que a precarização do trabalho. “Estabelecem cotas inatingíveis de se conquistar. Se continuar esse desemprego, essa condição de péssimos salários, a situação não vai melhorar. Existe um exército de reserva imenso. E quem paga a conta dessa relação de trabalho?”, questiona.
Para Gradella, a situação é tão delicada que o sujeito, na grande maioria das vezes, nem percebe o contexto no qual está inserido. E, quando nota, é obrigado a aceitá-lo, senão ele é engolido por ele. Talvez por essa razão, o médico e auditor da subdelegacia do Ministério do Trabalho, Sérgio Branco, tenha constatado empiricamente aumento nos casos de trabalhadores com depressão, no último ano.
Branco acredita que o fantasma do desemprego e a pressão por produção ajudem a elevar o número de casos, embora várias empresas já estejam preocupadas em garantir qualidade de vida a seus funcionários.
Depois de tornar-se mais uma vítima da depressão, uma professora - que pediu para ter o nome preservado - passou a trilhar o caminho do autoconhecimento. Antes de viver o drama, mal era capaz de identificar os sintomas do problema.
“À tarde, eu sentia muita angústia. Não tinha ânimo de entrar em sala de aula. Para mim, dar aula não é só passar o conhecimento clássico. É uma troca de experiência. E quando meus alunos me contavam da realidades deles, eu ficava muito abalada”, comenta. A situação se agravou de tal modo que até o suicídio lhe ocorreu, algum tempo depois.
Graças ao apoio e à insistência da família, além da fé e dos tratamentos, ela melhorou. Mas ainda alterna períodos bons com fases mais críticas. “Quando me afastei, muitos pais (de alunos) foram compreensivos comigo. Outros me cobravam o fato de ter deixado o filho deles. Cobravam aquela posição de líder que eu sempre tive”, comenta.
Por enquanto, ela não tem perspectiva de reassumir as classes. Segue num processo de readaptação para exercer o ofício em outra área. “O que o professor espera e a realidade em que vive são muito diferentes. Estão em lados opostos, não dá para fundir. Provoca na gente uma sensação de frustração muito grande”, avalia. De acordo com a entrevistada, além dessa decepção, outros problemas pessoais também ajudaram a provocar a processo depressivo, o qual ela vem superando.