Articulistas

Brazurique


| Tempo de leitura: 3 min

O dadaísmo foi um dos mais expressivos movimentos de vanguarda representativos do contexto histórico-social e cultural do início do século XX. Esse movimento foi fruto das contradições do modo de produção capitalista: por um lado o sentimento de euforia pelos avanços técnicos e científicos, e por outro, uma disputa cada vez mais acirrada entre as potências européias pelo domínio de mercados consumidores e fornecedores de matérias-primas que resultaria na Primeira Guerra Mundial.

O nome deriva, provavelmente da onomatopéia infantil dadá, que em francês, romeno, alemão, italiano e em línguas africanas apresenta conotações e significados diversos. Polissêmico dissílabo, dadá pode significar: bebê, brinquedo de criança, cavalinho de madeira, ama-de-leite, cubo e mãe (em determinada região da Itália), rabo de vaca sagrada (entre os negros de Knu da antiga Maryland africana, atual Libéria) – além do significado atual para nós brasileiros – “me dá uma pepsi”.

O movimento foi criado pelo poeta e ensaísta romeno Tristan Tzara (1896-1963) junto com o pintor Hans Arp e os escritores Richard Hülssenbeck e Hugo Ball. A revolução artística dadaísta foi lançada no bar Meirei, em Zurique, a partir de 14 de julho de 1916.

Essa vanguarda artística se expressava como um movimento de demolição dos valores consagrados pelo simples gosto de desmantelar as correntes estéticas em voga. Sua irreverência desmedida, tendências irônicas e anti-racionais, negativismo radical de seus princípios atraíram jovens artistas e intelectuais cansados com os clichês dominantes. Um dos manifestos dadaístas propunha “tentemos não ser corretos ao menos uma vez na vida”. Pelo menos uma vez só, diga-se de passagem.

Tristan Tzara, o líder do movimento procurou abolir a linguagem articulada e sugere criar um poema a partir de um jornal e tesoura: “escolha no jornal um artigo do tamanho que você deseja dar a seu poema. Recorte o artigo. Recorte em seguida com atenção algumas palavras que formam esse artigo e meta-as num saco. Agite suavemente. Tire em seguida cada pedaço um após o outro. Copie conscienciosamente na ordem em que elas são tiradas do saco. O poema se parecerá com você. E ei-lo um escritor infinitamente original e de uma sensibilidade graciosa, ainda que incompreendido do público”.

A escola artística dadá se disseminou pelo mundo, sobreviveu até a primeira metade da década de 20 e gestou o Surrealismo.

A curiosidade em resgatar esse movimento considerado mais como um estado de espírito oriundo das convulsões geradas pela 1.ª Guerra Mundial é em relação a cidade de Zurique, localizada na Suíça. Essa abrigou inúmeros homens foragidos e expatriados de outros países europeus. Enquanto o dadaísmo se disseminava pela Europa ao final da Grande Guerra, a cidade suíça tinha como uns de seus ilustres hóspedes, o escritor irlandês James Joyce (1882-1941) e o expatriado Vladimir Ilich Ulianov (1870-1924), mais conhecido como Lênin. De 1916 a 1917, esse último planejava e tramava cuidadosamente como derrubar o regime czarista russo. Através dos bolcheviques – grupos radicais marxistas do Partido Operário Social Democrata Russo (POSDR) – Lênin liderava-os de Zurique, uma série de greves, protestos, revoltas camponesas, atentados terroristas, assassinatos políticos atribuindo a autoria das ações: aos niilistas (anarquistas) e narodniks (populistas). Após sucessivas trocas de pessoas no comando do poder, Lênin retornou a Rússia e comandou a Revolução de outubro de 1917. Ele implantou a “ditadura do proletariado”, evidentemente controlado por um Partido forte, organizado e disciplinado: o Partido Comunista (PC). As brilhantes mentalidades citadas comandaram três revoluções: a artística (dadaísmo), a social (comunista) e a literária (Ulisses).

Ah! Caro leitor, futuro escritor, em homenagem aos noventa anos do dadaísmo recortei algumas frases de um artigo político: mensaleiros; sanguessugas; valerioduto; ética democrática; consciência pública; responsabilidade no jogo democrático; saúde; segurança; educação; revertério. Só falta compor um poema ao estilo dadá...

O autor, José Renato Ferraz da Silveira, é professor de Ciência Política no Curso de Direito e de Antropologia no Curso de Design no Iesb-Preve, doutorando em Ciência Política pela PUC-SP e mestre em Ciência Política pela PUC-SP

Comentários

Comentários