São Paulo - O quinto e, previa-se, último dia do julgamento de Suzane, Christian e Daniel Cravinhos, acusados de matar Manfred e Marísia von Richthofen em outubro de 2002, foi marcado pelos debates entre acusação e defesa.
Um debate desigual. Se a acusação permitiu-se, nas três horas iniciais a que teve direito, até encenar o homicídio com uma barra de ferro invisível, a 1 metro de Daniel, e repetindo: “O senhor bateu. O senhor bateu. O senhor bateu”, como fez o promotor Nadir Campos Junior; se os acusadores encenaram um showzinho que o próprio acusador Roberto Tardelli reconheceu parecido com “vaudeville”, os irmãos Cravinhos foram representados por um advogado, Adib Geraldo Jabur, que gastou metade da uma hora e meia a que teve direito, saudando todos os presentes, até os PMs e funcionários do fórum, “além da torcida do Corinthians”. Jabur revelou-se um noveleiro.
Comparou Suzane à personagem Bia Falcão, vilaníssima da novela “Belíssima” (encerrada há 15 dias). “Ela é como a Bia Falcão, rica, poderosa e mandona”. Também chamou a jovem de “loura má”, como a personagem interpretada por Carolina Dieckman na global “Cobras & Lagartos”.
No final da fala do advogado - que incluiu a filha dele, Gislaine Jabur, homenageando sua própria prole-, o comentário na sala do júri era: “Assim, a promotoria vai ganhar por W.O”. Então entrou o advogado de Suzane von Richthofen, Mauro Otávio Nassif, com sua tese da “coação moral irresistível”, desempenhada por Daniel sobre a jovem virgem Suzane.
A primeira votação dos jurados teve um placar de goleada: 6 a 1 contra Suzane. Mas bastou o voto do agente administrativo José Willians Machado de Sousa, jurado no caso, para paralisar o julgamento. Foi a pedido de Nassif, advogado de Suzane, que a votação foi realizada.
Nassif quis levar os jurados para conhecer a carceragem do fórum, no segundo andar do prédio, onde teriam Suzane, Daniel e Christian Cravinhos ficado em 4 de fevereiro de 2003. Segundo Suzane, foi nesse local que “a ficha caiu”, ou seja, “ela percebeu a personalidade sinistra e macabra de Daniel”. Diz a defesa de Suzane que naquela data, em um intervalo entre audiências, Daniel e Christian propuseram à jovem defender-se, acusando Manfred de estuprar a própria filha e de molestar o filho Andreas.
Conforme anunciara, Nassif defendeu a tese de que Suzane estava “escravizada”, “submissa” a Daniel, seu ex-namorado, o “homem da sua vida”. E que foi de Daniel a idéia de matar os pais, interessado na herança dos Von Richthofen. Ontem, a fase de debates foi encerrada por volta das 20h. O anúncio da sentença deveria acontecer ainda ontem, de madrugada. Para a acusação, não há diferença entre quem planejou e quem executou o assassinato.
Palavras duras
A acusação pediu ao júri que condene Suzane e os irmãos pela prática de dois homicídios triplamente qualificados. Agravantes do ato criminoso, as qualificações destacadas pelo criminalista Alberto Toron, assistente da acusação, foram as seguintes: crime cometido por motivo torpe (dinheiro), efetuado de maneira cruel (a golpes de barras de ferro) e sem dar às vítimas possibilidades de defesa (ambos dormiam). Coube a Toron encerrar o pronunciamento de três horas destinado à acusação.
Em sua fala, ele procurou desqualificar as teses das defesas. Uma delas a de que Suzane matou os pais porque estaria “emaconhada”. Maconha não leva ninguém a matar os pais, afirmou Toron. O momento mais tenso da parte do julgamento destinado à manifestação dos acusadores foi durante a fala do promotor Nadir de Campos Júnior.
Aos gritos, ele aproximou-se dos réus. “É repugnante, é abjeto, é nojento matar alguém e depois, na entrada do motel, dizer que quer a suíte presidencial”, falou, referindo-se ao fato de Suzane e Daniel terem ido a um motel após o crime.
Nessa hora, o caçula dos Cravinhos começou a chorar muito. Campos Júnior prosseguia quando, também gritando, surgiu à sua frente a advogada Gislaine Jabur, uma das defensoras dos irmãos. Ela reclamava do tratamento dispensado aos seus clientes.
Também aos gritos, o promotor pedia a ela que voltasse ao seu lugar imediatamente. O juiz não conseguia controlar a balbúrdia formada no plenário. Daniel e Christian se abraçaram chorando. “A crueldade deles não justifica a sua”, gritou a advogada antes de sentar. O advogado de Suzane, Mauro Otávio Nassif, posicionou-se de pé, ao lado da ré, antes que Campos Júnior retomasse a acusação. Ele pôs a mão direita sobre o ombro direito dela.
Suzane pousou a cabeça no quadril direito do advogado. Os cabelos tapavam seu rosto. Não demonstrava estar chorando. No início da fala dos promotores, ela assoou o nariz. O promotor não atacou Suzane. Preferiu centrar fogo no advogado, acusando-o de ter citado em um livro frases atribuídas ao criminalista Evandro Lins e Silva (1922-2002). O promotor Roberto Tardelli chamou Suzane de “fedelha assassina”.