Bairros

Preconceito contra bairro ainda persiste

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 4 min

Qual o maior problema enfrentado pelos moradores do Núcleo Fortunato Rocha Lima dez anos após sua inauguração? Violência? Miséria? Desemprego? Errado, nenhuma questão de ordem material. Nas opinião dos moradores, o mal que mais aflige bairro é o preconceito de grande parte dos bauruenses em relação a eles.

“A maioria das pessoas pensa que aqui só tem bandido, vagabundo e ladrão”, reclama Marcos Ferraz, coletor de lixo hospitalar. De fato, durante uma década, forjou-se na cidade uma imagem do núcleo como local de miséria e marginalidade. Os moradores até tentam contestar a visão geral.

“Se aqui tivesse tanto ladrão, minha casa já teria sido roubada diversas vezes, pois costumo sair e deixar a porta aberta”, argumenta Marlene do Santos Silva, que vive no bairro há dez anos.

Se todos os moradores de Bauru compartilhassem da visão de Silva, seria mais simples para as pessoas do Fortunato superar preconceitos, mas isto não é algo fácil. Prova é que atos simples do dia-a-dia, como enviar um currículo para uma empresa, transformam-se em tarefa penosa. O motivo? “Se a gente fornece o endereço do bairro, as pessoas olham torto, disfarçam e negam o emprego”, diz Fernanda da Silva Fernandes, de 25 anos.

Fernandes já foi doméstica, mas tem dificuldades para arrumar serviço. “Certa vez fiquei sabendo de uma vaga em casa de família, mas antes da entrevista fui avisada pelo meu tio, que conhecia os patrões, para não dizer que morava no Fortunato, senão não teria chance alguma”, conta.

Silva, que coleta lixo reciclável para sobreviver, também encontra dificuldades semelhantes. “Já fui faxineira e trabalhei em buffet, mas hoje não arranjo nada o que fazer”, reclama.

Ela já foi funcionária temporária da Prefeitura de Bauru, onde fazia tarefas de limpeza. Hoje, desistiu de procurar trabalho, pois avalia que suas chances de ser contratada são quase nulas. Qual a razão de tamanha dificuldade? “Talvez as pessoas pensem que eu vá facilitar a entrada de bandidos em suas casas”, caçoa Silva.

Empregos registrados são raros e difíceis de ser conseguidos. Ferraz, por exemplo, conhece bem o motivo pelo qual conseguiu trabalho na empresa onde está há dois anos. “Faz tempo que conheço o encarregado lá da firma, do contrário não me contratariam, mesmo com toda experiência que possuo”, acredita.

A má fama do bairro não atrapalha apenas na hora de arrumar emprego. Os moradores do Fortunato também sofrem na hora de fazer compras ou abrir crediário.

Maria Cleusa Soares, esposa de Ferraz, já passou por uma situação constrangedora quando tentou encomendar por telefone um cosmético numa loja do Centro da cidade. “Fiz o pedido e tudo ia correndo bem, até a vendedora perguntar meu endereço”, conta.

Ao saber que o produto seria entregue numa casa do Fortunato, a funcionária resolveu consultar a gerente. “Minutos depois, ela me informou que não seria possível efetuar a venda”, reclama.

Numa situação em que o preconceito mostra-se mais sólido que os blocos de concreto usados na construção das casas do bairro, esconder-se acaba sendo a única solução achada pelos moradores.

Boa parte acaba apelando a parentes e amigos que vivem em outras áreas da cidade na hora de fazer currículos ou abrir crediários. “Quando vou fazer compras ou entrevistas de trabalho, dou o endereço de minha tia que mora no Mary Dota, para evitar problemas”, afirma Fernandes.

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Transformação

Quem vê Marcos Roberto Vieira, 22 anos, nem imagina o caminho inusitado que ele percorreu até tornar-se ajudante geral do projeto Casa da Esperança, do Núcleo Fortunato Rocha Lima.

Nascido em Agudos, Vieira vive há dez anos no núcleo. “Eu era meio revoltado quando me mudei para cá”, conta. No período em que esteve naquilo que classifica como o “caminho da perdição”, ele ocupava seu tempo livre nas ruas, brincando ou guardando carros.

Por outro lado, garante nunca ter roubado ou usado drogas. O encontro com o projeto social deu-se de maneira torta, num Dia das Crianças, durante uma distribuição de brinquedos feita pela Casa da Esperança.

“Vimos que não havia brinquedos suficientes para todos, então resolvemos invadir o carro e pegar por conta própria”, explica. Dias depois, já arrependido, foi até a sede do projeto pedir perdão.

“Foi quando me convidaram para freqüentar a Casa”, relata. Depois disso, Vieira trabalhou como voluntário, até ser contratado para a função que exerce hoje pelo salário de R$ 350,00. Ele, que já terminou o ensino médio e pretende fazer faculdade de direito, cultiva esperanças para o futuro.

“Daqui dez anos, sonho com um bairro onde todos estejam empregados”, deseja.

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