Uma das mudanças mais significativas na forma como funciona a economia mundial foi a gradativa separação do sistema financeiro do sistema produtivo, durante o intenso processo de globalização ocorrido no último quartel do Século XX. Mudança que muitos governos só vieram a perceber com respeitável atraso e alguns até hoje (a latino-américa é um exemplo disso) nem se deram conta. Até o final dos anos 70, o financiamento aos países era feito primordialmente por empréstimos bancários diretos: os bancos colocavam seus papéis no mercado na posição devedora e emprestavam diretamente aos países na posição credora. Mantinham um compromisso de solidariedade muito grande com os países devedores já que dependiam da capacidade de pagamento deles. Depois do choque dos preços do petróleo e da crise financeira de 1982, os bancos passaram a colocar os papéis da dívida dos países diretamente no mercado financeiro, em fundos de aposentadoria e rentistas ricos do primeiro mundo, ficando apenas com alguma “responsabilidade moral”. Esse mercado foi sendo dominado por administradores profissionais, principalmente de “Fundos de Hedge”, que não são submetidos a controles institucionais como os bancos e atuam infatigavelmente “em bando” na busca da maior rentabilidade às custas de altíssima alavancagem, sem muita preocupação com os riscos de “curto prazo”. São operadores audazes que conseguem gigantescos bônus pessoais e migram de fundo em fundo na captura de novos incautos. Funcionam, na verdade como “pragas de gafanhotos”: pousam num país para explorar as oportunidades de arbitragem, não tomam conhecimento dos fundamentos e ao menor sinal de instabilidade (que muitas vezes eles próprios provocam), deixam em massa a economia abusada e vão pousar em outro país para recomeçar o mesmo jogo. A economia mundial sentiu os efeitos da praga quando o mais famoso fundo de hedge dos Estados Unidos quebrou em 1998 na moratória da Rússia, deixando a descoberto 14 bilhões de dólares pendurados no sistema bancário.
O socorro do FED, providenciado por Greenspan, garantiu a liquidez do mercado, após exigir dos bancos e acionistas que participassem do prejuízo. De tempos em tempos o Brasil tem experimentado os efeitos de tê-los acolhido alegremente, na especulação do diferencial entre as taxas de juro interna e externa. Usam uma estrutura financeira internacional, totalmente divorciada do sistema produtivo, alienada da economia real (não querem ouvir falar do fabricante de parafusos), exigindo dos governos e do Banco Central cada dia maiores cuidados no uso dos chamados bons “fundamentos”. Tudo isso para não espantar a nuvem de gafanhotos.
O autor, Antonio Delfim Netto, é deputado federal pelo PMDB, professor emérito da USP. E-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br