Articulistas

A Zona Eleitoral

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Estava decidido a votar em branco, ou a anular o voto teclando um número inexistente na urna eletrônica, atos que jamais pratiquei. Depois de ler as últimas estatísticas sobre os sanguessugas do Congresso Nacional, a lista daqueles envolvidos no escândalo das ambulâncias, cheguei a concluir que político faz muito mal à saúde dos brasileiros. Aos 57 nomes iniciais, foram acrescidos outros 33, dos quais 87 deputados e 3 senadores. É muita podridão, gente! Tarefa inglória renovar a Câmara Federal na esperança de extirpar também com os maus usos e costumes. Nada nos assegura que candidatos ainda virgens, eleitos para um primeiro mandato, deixarão de se transformar naquela manada de rinocerontes do teatro de Ionesco. O ambiente transforma todos em bestas, num trabalho constante de cooptação. O sistema corrompido, viciado, funciona como uma voragem que a todos engole. Saiba que 22 dos arrolados na CPI como sanguessugas são estreantes como parlamentares. Esse fato pode significar que político honesto é tão impossível quanto um genro carregar a foto da sogra na carteira e, de vez em quando, dar uns beijinhos nela. Ou então ver afixado no painel do carro o lembrete: “não corra, genrinho”. Os políticos padecem dessa síndrome. Se você tivesse de escolher entre um político criado por macacos ou um macaco criado por políticos para companheiro de quarto, qual seria sua opção? Por mim, pediria um quarto separado. Segundo o meu colega de coluna no JC e de ginástica, o dr. Falk Savi, “este país está tão desmoralizado que nem inverno mais tem”. O dono da empresa que vendia as ambulâncias e pagava propinas aos parlamentares pela apresentação das emendas orçamentárias, dedou quase todos os partidos como envolvidos no escândalo: PL e PP (18 cada); PTB, 17; PMDB, 11; PFL, 9; PSB, 6; PSDB, 4; PT, 2; PRB, 2; PSC, 2 e PPS, 1. Se gritar pega ladrão... E o Lula ainda lamentou: “logo agora que o país está ajeitadinho eles querem comer o filé-mignon”. Eles, quem, cara-pálida? Estamos roendo osso faz tempo. O povo brasileiro anda muito irritado. Por qualquer coisa, larga um “vá para o inferno”. Perdeu até a elegância. O Diabo manda Deus ao inferno, mas de forma sutil: “Apareça lá em casa...” Outro dia bateram na minha porta. Uma mulher com seis filhos, um dos quais, de dois anos está ficando cego devido a lentidão e à dificuldade de acesso a serviços médicos. Se abordado por ela, Lula provavelmente responderia com outra metáfora futebolística: “Atendimento à saúde é igual a jogo da Libertadores - é preciso paciência”. Como vota aquela garota que precisa terminar o ensino médio e trabalhar, mas não conseguiu vaga numa escola a pelo menos duas horas de sua casa? Minha filha me disse que votar em branco seria uma renúncia ao exercício da cidadania. Tapar os olhos não adianta. O Congresso é essencial à democracia. Vivemos 21 anos sob ditadura e, se a instituição se enfraquecer mais ainda, é possível que volte o regime de exceção. Cedo a esses argumentos. Vou votar. Mas de nariz tapado, a exemplo do Mainardi. Meu amigo Waldemar Nielsen, de Vitória, ES, me manda um e-mail esclarecedor: “Hoje, quando olho para o meu título de eleitor, começo a entender o verdadeiro significado da palavra “Zona Eleitoral”. Os políticos corruptos estão pouco ligando para os votos nulos ou em branco. Quanto mais eleitores conscientes fora do pleito, melhor. Quem tem condições de analisar candidatos, suas vidas, sua origem partidária, suas bandeiras e atuações políticas não interessa para o politiqueiro. Este, tem os votos de cabresto, mantém currais eleitorais. Quem precisa muito não vende o seu voto porque é bobo, mas porque essa é a única forma que encontra de barganhar, de conseguir alguma coisa, de fazer política. Já me declarei, aqui mesmo neste espaço, tempos atrás, contra a obrigatoriedade de votar. O funcionário público que não apresentar o comprovante de votação fica sem receber o salário. Injusto. Uma violência. Como professor de uma universidade estadual sequer posso ficar em casa e desfrutar do primeiro domingo de outubro. Também tenho medo de, ao anular o voto, condenar, não a política corrupta, mas aquela mãe e o seu filho que está ficando cego. Condenar o povo. Então, mudo o discurso como um jacobino sedento de democracia, a exemplo de Bettencourt: Cidadãos! “Ao se recusarem à mobilização, ao abrirem mão da sua capacidade de organização, da sua capacidade de levantar bandeiras, e dar esperanças – independentemente da classe social a que pertençam - condenam ao ostracismo político a si mesmos”. O voto nulo é o voto pela perpetuação do que aí está. Não vamos nos enganar. Às urnas. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)

Comentários

Comentários