Na Tribuna do Leitor do dia 3 de agosto p.p., o sr. Adriano Bruno afirmou que nossa ONG “Alfabeto Sem Amarras” pretende eliminar letras do alfabeto e criar fórmulas mirabolantes para facilitar o aprendizado, incentivando-se a indolência e nivelando por baixo o ensino. Peço, como é minha obrigação, licença para fazer a defesa da ONG, já que sou seu presidente.
Aos 8 anos, sr. Bruno, afirma já ter aprendido a ler e a escrever adequadamente! Acho que quis dizer “escrever um rol de palavras”. Umas três ou quatro mil, talvez. Hoje sabe umas oito a dez mil palavras, como a maioria dos “intelectuais”. Ninguém sabe todas as palavras ou “quase todas”. Nosso idioma, isto é, o “nosso idioma imposto pelos conquistadores” possui aproximadamente quatrocentos e cinqüenta mil palavras. Nosso maior dicionário (Novo Aurélio) registra cerca de 185.000 palavras com 450.000 verbetes.
O maior dicionário português (lá de Portugal) registra 120.000 palavras. Isto quer dizer que somos muito mais ricos do que os inventores do idioma. Recebemos e registramos em nossos dicionários muitas palavras dos irmãos árabes, africanos, franceses, italianos, japoneses, chineses, ingleses e, principalmente, dos brasileiros puros como os tupis e guaranis. A língua portuguesa era propriedade de Portugal e os brasileiros eram apenas usuários. Hoje não. Assim como D. Afonso Henriques, em 1140, derrubando a soberania de Castela, decretou a consolidação do idioma português, separando-o do galego, o Brasil, já vem, há décadas, estabelecendo a sua liderança no que se refere à língua portuguesa falada, em nosso país. Até países lusófonos recorrem ao Brasil, procurando saber das inovações estabelecidas. A maior prova foi a reforma de 18 de dezembro de 1971, através da lei n.º 5.765, sancionada pelo presidente da República Emílio G. Médici, que fez diversas alterações na ortografia, abolindo quase todos os acentos diferenciais usados nas palavras de pronúncia fechada (govêrno-governo).
As mudanças fonéticas e ortográficassempre existiram. O que nós queremos é a simplificação do código alfabetário para que seja facilitado o aprendizado do idioma aos milhões de analfabetos brasileiros. Podemos comparar: eu, você e os leitores do JC somos letrados. Somos pertencentes a uma minoria de privilegiados, a uma casta dominante, enquanto 70% dos brasileiros são analfabetos plenos ou analfabetos funcionais. E isto por culpa de um código idiomático incongruente e de difícil aprendizado. Por que não torná-lo entendível por completo? Escreveu você que a culpa do não aprendizado do idioma é dos professores, do sistema... Em parte até concordamos: são mal remunerados, faltando-lhes, por conseqüência, a necessária motivação. Mas, por que será que os estudantes aprendem muito bem matemática, geografia, história, ciências e não aprendem o idioma português? Será que os professores só são deficientes no ensinar a língua, o ler e o escrever? Num exame da Ordem dos Advogados do Brasil, 82% dos candidatos foram reprovados na prova de redação... Por quê?
Há (não estou só) pessoas ilustres que pregam a necessidade de se fazer uma simplificação radical no sistema ortográfico do idioma: Domingos Paschoal Cegalla, Francisco da Silva Borba, Adriano da Gama Kuri, etc.
Não queremos (eu e os membros da ONG) empobrecer a língua portuguesa. Da forma que você pensa, ela já vem sendo empobrecida há muito tempo. Usavam-se “pharmacia”, “psalmo”, “chimica”, “officio”, “theatro”, “rhinoceronte”. Como era linda a flor do Lácio... Vamos, sim, pensar moderno, pensar grande, vamos propor o sumiço do S do dígrafo SC, do dígrafo SX, do dígrafo SÇ. Vamos propor para que o X não tenha cinco pronúncias diferentes. Vamos propor mudanças. O trem só anda bem e com velocidade se estiver em cima dos trilhos.
Por derradeiro, para não me alongar mais: Escreveu você que se deva usar o trema que em nada atrapalha o escrever das palavras. Saiba que este sinal diacrítico já foi oficialmente abolido pelo acordo ortográfico, em 1990, assinado pelos países lusófonos e já ratificado pelo Congresso Nacional. Será que foi aprovação de proposta estapafúrdia, como disse?
José Perea Martins - presidente da ONG “Alfabeto Sem Amarras”