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Evidência desprezada


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No primeiro fundamento de seu método, o filósofo francês René Descartes disse que não aceitaria nada como verdadeiro se não fosse evidente que era verdadeiro. A evidência é a verdade que não pode ser contestada mas, muitas vezes, apesar de estar no nosso nariz nós não a levamos a sério. Senão, vejamos.

Quanto você ganha por mês? Digamos, R$ 10.000,00. Com uns R$ 2.500,00 de descontos daria líquido R$ 7.500,00. Supondo que seus gastos normais sejam R$ 5.000,00, no fim do ano, sem imprevistos, somando o 13° salário líquido você terá uma economia de uns R$ 35.000,00, que no final de 10 anos estariam lá pelos R$ 400.000,00. Você foi feliz nesses dez anos, não teve nenhuma doença ou acidente que fizesse um rombo no seu orçamento, mas você não casou com mulher rica, não recebeu herança de família e não ganhou na sena. Logo, a sua posse é a sua economia, essa aí, mas você comprou um apartamento avaliado em R$ 600.000,00, sem financiamento, na sua garagem há um carro seu de R$ 90.000,00 e outro da mulher de R$ 40.000,00 e todos os anos você tira férias e faz longos passeios, inclusive para o exterior. Logo, é evidente que isso não foi possível só com o seu salário.

Analisando os fatos passados e atuais, publicados em abundância pela imprensa, concluímos que essa é uma evidência desprezada, próxima de nós mas que não lhe damos importância. O cidadão se elege prefeito, passa a viver dos subsídios e seu orçamento pessoal pode facilmente ser avaliado como na suposição acima. No entanto, ao terminar o mandato tem um patrimônio – casas, fazendas, veículos - muito além do que seria possível com as suas economias. Outro, depois de ser prefeito ainda se elege deputado ou ganha uma pasta no governo, e aumenta ainda mais o patrimônio, comprando até avião. Juiz ou delegado, cujo rendimento do emprego também é de fácil mensuração, passa a viver em condomínios de luxo, em casas ou apartamentos de milhão para cima, com taxa de condomínio elevada, sem possuir outra fonte de renda legal além de seus vencimentos. Auditor fiscal também consegue proezas desse gênero. Em todos esses casos é evidente que o indivíduo meteu a mão no que não era seu.

Naturalmente, esse tipo de evidência não se restringe só a alguns funcionários públicos. Há os particulares que com eles são coniventes e os que conseguem o milagre de reunir um patrimônio muito acima das suas possibilidades legais, sem precisar da ajuda de gente do governo. Tanto no governo como na atividade particular esses casos são crimes praticados por uma minoria, mas uma minoria que vem crescendo porque a maioria, que é honesta e trabalhadora, pouco liga para o fato de ter vizinhos ou mesmo amigos nessa situação. E embora jamais seriam capazes de fazer as coisas que eles fazem, não deixam de ter uma certa admiração ou mesmo inveja do ‘sucesso’ deles e não se incomodam em conviver com eles. São crimes que só eventualmente são levados à Justiça, apesar da evidência.

Uma prova do desprezo pela evidência do enriquecimento ilícito começamos a ter mais explicitamente agora com a campanha eleitoral. Candidatos que se enriqueceram e ajudaram outros a se enriquecer fraudulentamente, voltam a dar entrevistas e a subir nos palanques sob os aplausos de muita gente que sabe muito bem quem eles são mas que não dá a mínima para isso e até os defende com ardor. Abra os jornais ou ligue a televisão e irá vê-los oferecendo-se para resolver os problemas do estado ou do país e, acintosamente, prometerem que vão combater a corrupção.

O autor, Pedro Grava Zanotelli, é consultor e ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru

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