Internacional

Hizbollah grita vitória e Israel ameaça

Por Michel Gawendo | Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

Jerusalém - Com o início de um cessar-fogo aprovado pela ONU após um mês de conflitos entre Israel e o Hizbollah, o líder do grupo terrorista, Hassan Nasrallah, declarou vitória “estratégica e histórica” sobre Israel ontem e disse que agora não é o momento para o Líbano debater o desarmamento do grupo, conforme pede a resolução da ONU.

O Hizbollah disparou ao menos dez foguetes Katyusha contra o Sul do Líbano ontem à noite sem deixar vítimas. Apesar da entrada em vigor do cessar-fogo, o Hizbollah informou que ainda vai atacar forças israelenses enquanto as tropas ocuparem o sul do Líbano. Nenhum dos foguetes, disparados em um intervalo de mais de duas horas, cruzou a fronteira, segundo o Exército, que afirmou não ter respondido aos disparos.

O premiê de Israel, Ehud Olmert, afirmou que “a guerra não acabou” e prometeu perseguir os líderes do Hizbollah -que, segundo ele, sofreu um duro golpe. “Estamos diante de uma vitória estratégica e histórica, sem exageros”, disse Nasrallah em mensagem gravada e transmitida pelo canal Al Manar, do Hizbollah, horas após o discurso de Olmert ao Parlamento. “Saímos vitoriosos de uma guerra em que grandes exércitos árabes foram derrotados.”

O líder xiita criticou os políticos libaneses que começaram a debater o desarmamento da guerrilha antes da retirada das tropas israelenses. “Isso é um erro, tanto psicologicamente quanto moralmente. Quem vai defender o Líbano em caso de uma nova ofensiva israelense? O Exército libanês e as tropas internacionais são incapazes de proteger o Líbano”, disse Nasrallah, que prometeu discursar em público - ele não aparece desde o início do conflito, em 12 de julho - e debater o desarmamento na hora propícia.

Já Olmert disse que sua ofensiva militar foi um duro golpe para o Hizbollah. “Continuaremos a persegui-los em todos os lugares e a todo momento. Não temos intenção de pedir permissão a ninguém.”

Olmert não chegou a declarar vitória, mas afirmou que a guerra “mudou o balanço estratégico” na região. “Já não há uma situação em que uma organização terrorista tem permissão para atuar dentro de um país como um braço do eixo do mal Teerã-Damasco.”

Falhas

Israel afirma que destruiu entre 80% e 90% da capacidade do Hizbollah de disparar mísseis de longo e médio alcance. O país admite, porém, que o grupo mantém ainda quase intactas as funções de comando e controle de suas tropas e de disparar foguetes Katyusha. O serviço de Inteligência do Exército afirma que foram mortos cerca de 500 guerrilheiros, e que 20 foram capturados.

Caças israelenses realizaram 15 mil missões contra 7 mil alvos no Líbano durante o conflito, disse hoje o general Ido Nechushtan, comandante da Força Aérea do país. “Mostramos o preço para quem atacar Israel”, disse o militar a correspondentes em Jerusalém.

Depois de Olmert, o líder da oposição, Benjamin Netanyahu, do Likud, disse que os objetivos da guerra não foram completados, já que os soldados seqüestrados pelo Hizbollah - estopim da ofensiva militar - não foram soltos.

Segundo os governos do Líbano e de Israel, ao menos 800 libaneses (692 civis) e 157 israelenses (39 civis) morreram no conflito. Olmert vem sofrendo duras críticas sobre a condução da guerra. A esquerda afirma que o governo foi irresponsável ao iniciar a operação terrestre, e a direita diz que as tropas foram mandadas tarde para o Sul do Líbano.

Há divergências na cúpula do Exército, desavenças entre o campo político e o militar e dúvidas de Inteligência. O premiê admitiu “falhas” e disse que haverá um período de “reflexão”, e o ministro da Defesa, Amir Peretz, prometeu formar grupo para analisar o conflito.

Apesar do cessar-fogo, Israel mantém restrições de circulação de veículos e o bloqueio aéreo e marítimo no Sul do Líbano. O país tem cerca de 30 mil soldados em território libanês. Os militares suspeitam que o Hizbollah usará o cessar-fogo para se rearmar e voltar a assumir posições no Sul.

A retirada das tropas e o envio dos soldados da ONU começou a ser debatida ontem, entre oficiais israelenses e da Unifil, a missão das Nações Unidas no sul do Líbano. O calendário ainda não foi definido. Beirute anunciou que deve enviar 15 mil soldados à região ao norte do rio Litani nesta semana. O cessar-fogo foi respeitado, mas as horas antes do começo do acordo foram violentas.

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