Polícia

Com R$ 2,50, pipa vira arma mortífera

Luiz Galano
| Tempo de leitura: 3 min

Núcleo Mary Dota, final da tarde. Crianças com minguadas opções de lazer se aglomeram em áreas descampadas para se divertir, “tirando um rélo”. A gíria resume o ato de testar, no céu, quem tem mais destreza nos dedos. Quem corta mais pipas torna-se respeitado no meio da turma. Nas mãos, um “brinquedo” letal, 500 metros de linha cortante, confeccionada com apenas R$ 2,50. Na semana passada, um motociclista de Bauru foi atingido por uma linha com cerol e escapou, por pouco, da morte. Na última segunda feira, uma mulher foi degolada em Lins.

“É baratinho. O vidro a gente pega na rua, ou em casa mesmo. A cola para madeira é só comprar na bomboniere, por R$ 2,00”, revela Catatau, que tem 13 anos e revela empinar pipa com a linha cortante desde os 7. Seu amigo de 17 anos completa a planilha de gastos. “Com mais R$ 5,00 dá para comprar um carretel de linha de 500 metros. Dependendo da quantidade de pó (de vidro) que você tiver, dá para cobrir toda a (extensão da) linha”, explica.

Sentados na esquina, os garotos se interessam pelo bate-papo. “Tem lugar que já vende pronto (o cerol), mas custa R$ 3,00 e, além de ser ruim, não rende tanto”, diz um garoto, de 15 anos, que afirma ter soltado pipas durante quatro anos, mas está aposentado há um. “Já cortei muito a perna, com a linha no chão (ele mostra as cicatrizes). Tomei consciência e parei”, encerra.

O garoto de 13 anos, ainda na ativa, não faz questão de esconder que o ritual de preparar o cerol é apreciado pelos meninos. “O negócio é fabricar. Não dá muito trabalho. É só ter cuidado no trato com o vidro, que não tem perigo. Além do mais, esse que a gente faz é melhor e dá para colocar mais pó (de vidro), quando quiser”, revela sem se preocupar com o risco de terceiros serem feridos.

Os garotos explicam o porquê do cortante ser tão popular. “A primeira coisa é que todo mundo que solta tem que ter cerol, senão perde linha e pipa, na certa. A segunda é que vicia. Você corta 1, 2, 3, 4, e gosta. A terceira é que, depois que você corta, além de ficar mais conhecido, dá para zoar o outro”, explica o menino de 13 anos, que considera “sem graça” soltar pipa e não “tirar um rélo”.

Todos no grupo afirmaram ter consciência dos perigos. O rapaz de 17 anos, afirma ter parado de empinar pipa depois de ter presenciado uma tragédia. “Quando eu morava no (Jardim) Chapadão, um cara morreu por causa da linha. Depois disso criei juízo e parei”, revela.

O garoto de 13 anos, também presenciou um acidente. “Um dia eu vi um pipa cheio de linha caindo e fui atrás para tentar pegar. Quando ele estava em cima da avenida, passou um cara de moto. Ele ficou com o bigode e o pescoço cortados”, conta o menino.

De acordo com os garotos, a falta de opções de lazer é o principal fator que os leva a empinar pipa. “Essa é a nossa principal diversão. Aqui (Mary Dota), a gente não tem onde brincar. Nem quadra de futebol tem. Quem quer jogar precisa pagar”, reclama um dos garotos em nome de todos.

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