Bairros

Rio Verde teme proximidade com aeroporto

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 3 min

Rio Verde é uma terra esquecida e a vida de seus moradores é marcada pela mesmice de tarefas, pessoas e lugares. Habitantes de menos, trabalho aos montes. A única opção de lazer disponível está no contato do homem com a natureza. Tem sido assim desde a fundação da vila, em 1917.

Semelhante a outras comunidades rurais do Interior de São Paulo, o patrimônio parecia fadado a desaparecer. Mas agora essa realidade pode mudar, pois Rio Verde é vizinho do novo aeroporto de Bauru, considerado a principal obra da cidade nos últimos tempos e que está previsto para ser entregue em outubro deste ano.

A distância de seis quilômetros entre os dois locais causa preocupações aos moradores do bairro, que fica a 24 quilômetros de Bauru, com entrada pela rodovia Bauru-Iacanga (SP 321) e faz divisa com os municípios de Arealva e Pederneiras.

Nas conversas entre habitantes, além de temas do cotidiano, como a questão da regularização dos lotes de terra do patrimônio (hoje propriedades da Igreja Católica), o assunto da moda tem sido as transformações que o aeroporto pode causar no dia-a-dia da comunidade.

José João da Costa, de 57 anos, vive no núcleo do bairro, ou seja, num ajuntamento com pouco mais de uma dúzia de casas, dois bares que abrem somente à noite e a capela de São Sebastião, padroeiro do local, num espaço de cinco alqueires.

Ele, que nasceu em Beira do Jardim, Pernambuco, pouco vai à Bauru. “Vou mais em caso de doença”, diz. Mesmo quando precisa fazer compras, Costa não se desloca do pequeno povoado. “Prefiro entregar uma lista e dinheiro para que algum vizinho traga para mim”, explica. Vivendo em tamanho isolamento, é natural que Costa encha-se de indagações ao comentar sobre como ficará o lugar após o término da obra.

“Será que esse negócio será bom para Rio Verde?”, questiona ele, empregado de uma das inúmeras propriedades rurais existentes nas redondezas, que abrigam cerca de 100 moradores no total, segundo estimativas da Secretaria Municipal de Agricultura e Abastecimento (Sagra).

Um medo comum entre eles é de que a movimentação do aeroporto possa trazer violência ao bairro. “Se não colocarem vigilância dia e noite, a gente vai estar enrolado”, acredita Costa. Seu temor tem fundamento, já que as bases policiais mais próximas ao lugar estão em Bauru.

O vendedor Wilmar Berton, o Gaúcho, trabalha numa loja em Bauru, mas preferiu fixar-se em Rio Verde, por considerar o local tranqüilo. Agora, com o aeroporto prestes a ser inaugurado, Gaúcho também anda preocupado. “O progresso é bom, mas certamente vai tirar nosso sossego”, lamenta.

O medo em relação ao futuro é grande e também envolve questões como perigo de ocupação desordenada, poluição, que somadas aos problemas já existentes (dificuldade de acesso, falta de infra-estrutura básica) tornariam terrível a vida no lugar.

Mas, por enquanto, os efeitos concretos da obra sobre o bairro são poucos, resumindo-se quase que exclusivamente à pavimentação de um trecho de seis quilômetros da estrada vicinal que liga a entrada do aeroporto à rodovia Bauru-Iacanga.

Mesmo nesse caso, Rio Verde (localizado a seis quilômetros da obra) pouco é afetado, pois o asfalto não chega até o povoado. Segundo informações da Prefeitura de Bauru, ainda não está prevista pavimentação do restante da vicinal.

Enquanto o aeroporto não abre, os moradores seguem tocando a vida, sem saber se a pasmaceira da vida na roça será capaz de resistir ao ronco das turbinas ou se as aeronaves trarão consigo a loucura e a agitação dos grandes centros urbanos.

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