Um fenômeno que caminha a passos largos em toda a área de plantio do Estado de São Paulo pode transformar a paisagem em um verdadeiro ‘deserto verde’. Áreas imensas antes ocupadas pela pecuária, café, laranja e outras culturas estão perdendo espaço para a cana-de-açúcar.
Isto porque a cultura vive um dos seus melhores momentos. Estimativas do setor apontam que a produção de cana-de-açúcar no Estado de São Paulo, de acordo com levantamentos de junho de 2006 (safra 2006/07), é estimada em 273,1 milhões de toneladas. O número é 7,2% superior ao registrado na safra passada, cultivada em uma área de 4,1 milhões de hectares, e 10,6% superior ao obtido em 2004/05.
É com base nesse contexto que a cultura canavieira tem atraído cada vez mais os proprietários rurais, que arrendam as terras para as usinas e passam a viver de ‘aluguéis’. As vantagens aparentes do ‘negócio’ podem se tornar um pesadelo no final do contrato, caso o arrendatário não inclua cláusulas que garantam que a terra será devolvida como foi arrendada.
O zootecnista Mário Coelho Aguiar, proprietário de uma empresa de consultoria em Botucatu, explica que a migração de área de pecuária para a área de cultura de cana vem acontecendo gradativamente há três anos, mas ganhou velocidade de supersônico no último ano. “De um ano para cá se tornou mais evidente. Os criadores de gado estão se transformando em fornecedores de cana. A maioria passou a arrendar terras para plantação de cana”, afirma.
Na opinião dele, o principal atrativo é que o arrendatário não tem que fazer investimentos, quem os faz é a usina. “O proprietário da terra deixa de trabalhar e passa a viver do ‘aluguel’ da terra”, explica.
A expansão dos canaviais no Estado de São Paulo é vista como irreversível pelo presidente do Sindicato Rural de Bauru e vice-presidente da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo, Maurício Lima Verde. Segundo ele, até 2010 deverão ser instaladas 25 novas usinas no Estado de São Paulo e ainda há precisão de um alcooduto na região (leia mais na página 26). A causa é simples: atender à demanda de álcool e açúcar, cuja safra 2010/2011 está estimada em 570 toneladas.
Lima Verde explica que no Estado existem cerca de 60 usinas, algumas em funcionamento e outras em fase de instalação. “Em quatro anos elas deverão chegar a 90 unidades. Deverão ser instaladas em Bauru ou em qualquer outra cidade, próximas às áreas de plantio”, projeta.
No último ano, na opinião dele, houve uma expansão na região. “Em Bauru não, mas em Iacanga, Lençóis Paulista e em outros locais, sim.” Para ele, a chegada da cana-de-açúcar no município de Bauru é questão de tempo. “As usinas precisam de áreas de plantio e a cidade tem uma logística muito boa”, analisa. Dois aspectos são considerados importantes para a expansão dos canaviais: a topografia e a distância das usinas. “A propriedade não pode ter topografia acidentada por causa das máquinas, além disso, o canavial tem de estar próximo da usina. Antigamente, a distância era de 30 a 40 quilômetros, porém a necessidade está fazendo com que as usinas assinem contratos com até 65 quilômetros. Isso diminui os gastos com o transporte”, explica.
O custo dos equipamentos para a colheita da cana associado ao tipo de terreno inviabiliza, na maioria dos casos, a substituição da queima e do corte por máquinas.
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Alta rentabilidade divide opiniões
O proprietário rural Francisco Garcia Peres está razoavelmente satisfeito com o arrendamento de parte de sua fazenda para a usina de São Luiz do Guaricanga. “Eu arrendei 86 alqueires dos 290. O contrato foi assinado no ano passado por cinco anos”, conta.
O motivo que levou o fazendeiro a arrendar parte de suas terras não difere da maioria: a baixa rentabilidade da pecuária. “Eu tinha pasto para gado, mas a rentabilidade está muito baixa; a da cana não é essas coisas, mas pelo menos eu não tenho gasto com mão-de-obra, vacinas e conservação do pasto. O que eu recebo é líquido”, afirma.
Para o zootecnista Mário Coelho Aguiar, proprietário de uma empresa de consultoria em Botucatu, arrendar a terra pode parecer vantajoso num primeiro momento, uma vez que permite ao criador não fazer investimentos e não trabalhar, especialmente se o arrendatário não tem condições para isso. Porém, colocar todos os ovos numa cesta, ou seja, centrar as atividades rurais na cultura canavieria, deixa de ser a melhor alternativa quando ponderados outros critérios.
“O mais inteligente é diversificar. Hoje a cana está muito bem, mas amanhã pode não estar. Há três anos, estava maravilhoso para a soja, hoje não está mais. Diversificar parece a atitude mais coerente”, defende. Pela tese de Aguiar, a diversificação de culturas garante a sobrevivência do agricultor. “O ideal é dividir a terra e ter mais de uma atividade em sua propriedade. Arrendar uma parte para a cana e manter a pecuária noutra parte. Ele nunca vai ganhar demais, mas não corre o risco de perder demais”, ensina. Para ele, os contratos de arrendamento por período superior a cinco anos são muito arriscados. “Quem é que sabe o que vai acontecer em cinco anos. Se der tudo certo, ótimo. Mas, se não der, as usinas poderão não honrar com seus compromissos e o agricultor ficar numa situação bem mais difícil do que estava antes do arrendamento.” (RCC)
Cana poderá gerar 60 mil empregos
Levantamentos feitos pela Federação da Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp), que congrega 235 sindicatos, confirmam que a demanda de álcool e açúcar é crescente. Em 2010, a demanda por cana será de 570 milhões de toneladas, o que representará um acréscimo de 2,3 milhões de hectares no Brasil.
Para o engenheiro agrícola da federação, Cláudio Silveira Brisolara, se forem consideradas a produtividade constante e a mesma proporção de produção paulista em relação ao Brasil, pode-se supor que essa produção gerará reflexos importantes no Estado de São Paulo.
Uma delas envolve a expansão da área cultivada de cana-de-açúcar em 1,326 milhão de hectares, o que demandará 640 mil toneladas de fertilizantes a mais se considerado somente a safra 2010/11.
Para esse mesmo período, está previsto o aumento do valor bruto da produção paulista em R$ 3,8 bilhões e a geração de até 60 mil empregos na produção primária, dependendo do nível de mecanização das lavouras, aponta Brisolara.
Brisolara frisa que dados do setor são divulgados a todo momento e que a federação se baseia em levantamentos da Companhia de Desenvolvimento Agrícola de São Paulo (Conab). Para ele, a área a ser expandida no Estado de São Paulo perfaz cerca de 10 milhões de hectares. “A nossa preocupação é que essa expansão seja planejada, respeite as leis ambientais e promova o desenvolvimento no meio rural”, frisa o engenheiro agrícola. (RCC)
Opções
Para o presidente do Sindicato Rural de Bauru e vice-presidente da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo, Maurício Lima Verde, o setor agrícola da região de Bauru tem, atualmente, três alternativas: cana-de-açúcar, eucalipto e laranja.
Segundo Lima Verde, essas três culturas estão invadindo a área de pastagem. Isto por que, segundo ele, a cana permite ao arrendatário retorno financeiro quase três vezes maior que o verificado na pecuária. “A vantagem sobre o eucalipto e laranja, é que ela não degrada tanto o solo, já que tira nitrogênio do ar. Se bem conduzida, não prejudica o meio ambiente”, explica.
De acordo Lima Verde, em diversos lugares onde o cultivo da cana é predominante já não há o mínimo impacto sobre o meio ambiente. “O pessoal fala demais de monocultura, que o Estado vai se tornar um grande canavial. Eu discordo, porque a cana precisa de uma topografia adequada”, afirma. (RCC)