O avanço dos canaviais no Estado de São Paulo pode provocar uma nova edição do êxodo rural. O problema virá com menos força do que há 20 anos, quando surgiu o Pró-Álcool, porém com efeitos mais devastadores contra a natureza, prevê a socióloga rural Dulce Consuelo Andreatta Witaker.
Professora da pós-graduação da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Araraquara, ela acredita que os bolsões de pobreza do Pró-Álcool serão incrementados com a chegada dos ‘novos’ cortadores de cana. “A caminhar nesse ritmo, podemos ter um caos apocalíptico, ou seja, pequenas áreas ricas, com verde dentro de uma bolha de plástico ou acrílico, porque a natureza vai estar devastadas e, no contraponto, teremos uma massa de miseráveis se digladiando.”
Witaker admite que essa é uma visão pessimista e, para não radicalizar, emenda comentando. “Há uma possibilidade dos partidos políticos considerados verdes saírem vitoriosos e restabelecerem a natureza, a pequena propriedade produtora de alimentos.”
Ela lembra que em 2004 esteve num congresso na Noruega e lá percebeu que alguns países europeus estão se preocupando com o êxodo rural. “Eles estimulam o campesinato, dando subsídios para que eles desenvolvam pequenos capitais, o que permitiria continuarem no campo tendo uma vida moderna.”
Na opinião da socióloga, a sociedade não pode exigir que as pessoas se fixem no campo, passando necessidades. “Não há escola, posto de saúde, conforto. Se houver políticas públicas para levar tudo isso para o campo, o camponês não vem para a cidade”, afirma.
Porém, a troca do campo pela cidade tem vários motivos, não podendo ser atribuída somente à cultura da cana, frisa Witaker. “A soja em grande extensão mecanizada para exportação para engordar gado europeu e a laranja em grandes cultivos para exportar suco para os americanos também contribuem para esse processo. Quer dizer, não é só a cana, mas toda um invasão do campo, aquilo que chamamos de agronegócios, que nada mais são do que a grande lavoura.”
Para explicar a diferença entre o comportamento do colono para o cortador de cana, a especialista usa a cultura do café. “Na lavoura de café, o colono era fixo na propriedade. Ali criava animais, tinha sua horta e não tinha despesas com água, luz e aluguel. Na lavoura de cana, isso não acontece. Ele mora na cidade e arca com todas as despesas da área urbana.”
As pequenas propriedades rurais com culturas diversificadas desapareceram quase por completo e em seu lugar surgiram os grandes cultivos para a exportação e obtenção de divisas, constata a professora. “Ninguém se preocupa com os processos que decorrem daí. Não é só isso, tem também o estrago total completo da natureza. A queimada da cana acaba com os nossos pulmões, uma verdadeira calamidade.” (RCC)
- - -
Impacto
O homem do campo não é responsável pela violência urbana, avisa a socióloga rural Dulce Consuelo Andreatta Witaker, professora da pós-graduação da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Araraquara. Para ela, atribuir a violência urbana a eles é o mesmo que dizer que a culpa é dos pobres.
“A violência urbana tem outras causas. É inerente a um sistema marcado por um materialismo exacerbado, uma sociedade de consumo e uma produção em massa”, afirma Witaker.
Na opinião dela, o impacto do homem do campo na zona urbana não é tão drástico, uma vez que hoje, no Estado de São Paulo, grande parte das propriedades possuem energia elétrica e assistem televisão. “Os modo de produção tem meios de fazer chegar ao campo a sociedade de consumo. Mesmo na zona rural elas querem pertencer ao universo que consome bens que dão status”, diz. (RCC)