Está completando um ano a Resolução 1.612, do Conselho de Segurança da ONU, que estabeleceu mecanismos de vigilância sobre seis graves violações dos direitos das crianças. A preocupação é plenamente justificada, considerando que, nos últimos 10 anos, dois milhões de menores morreram e cerca de cinco milhões foram mutilados em guerras.
A prevenção à morte e mutilação de crianças na crueldade das desinteligências bélicas é a conquista da paz, objetivo onírico numa civilização permeada por materialismo, intolerância, tensões políticas e disputas econômicas. Esta análise suscita reflexão sobre ações preventivas no Brasil, onde, apesar da violência inerente à criminalidade, convivem em harmonia distintas etnias, credos e ideologias. Porém, esta sociedade pluralista e pacífica deve somar forças na luta justa para promover a saúde na infância. Aqui, uma em cada 16 crianças morre antes de completar 5 anos, muitas vezes por causas passíveis de prevenção.
Também poderiam ser evitados numerosos casos de deficiências físicas, como demostram estudos da Associação de Assistência à Criança Deficiente). Um exemplo é a paralisia cerebral. Numa amostra de 6.007 pacientes, cerca de 2.100 são paraplégicos e 1.700, tetraplégicos. A prevenção deve começar antes do nascimento, com a nutrição adequada da mãe, controle do fator Rh, verificação de eventual incompatibilidade ístimo-cervical e exames para diagnosticar diabetes e hipertensão.
Os cuidados devem continuar no nascimento, com o estímulo ao parto normal e presença de pediatra na sala do parto, e na infância, combatendo-se o baixo peso, riscos de asfixia, distúrbios metabólicos e convulsões. São importantes, ainda, o aleitamento materno, vacinações e combate às infecções.
A lesão encefálica adquirida infantil é outra causa grave e recorrente de deficiência física. Sessenta por cento das lesões ocorrem na faixa etária de até 6 anos. Quase 45% dos casos são provocados por traumatismo crânio-encefálico. Os acidentes automobilísticos são causa recorrente: respondem por 35,8% dos traumatismos.
Atropelamentos são causadores de 31,7% dos casos de traumatismo crânio-encefálico. A prevenção inclui medidas educativas, mais atenção de motoristas e pedestres e adequação tecnológica dos veículos. Um dado preocupante: em 30% dos atropelamentos ocorre o óbito. Outros 22,5% dos casos são provocados por quedas de altura.
Outra causa de lesão encefálica adquirida infantil é a anoxia (falta de oxigênio no cérebro). Dentre estes casos, 34,7% são provocados por afogamento. A mielomeningocele também aparece como causa de deficiência física na infância. Neste aspecto, deve ser citada a luta vitoriosa da AACD pela adição de ácido fólico (vitamina B9) às farinhas, essencial à prevenção, que inclui cuidados com crises convulsivas, diarréias e infecções.
Disseminar a cultura da prevenção é um compromisso inalienável da governança de entidades do Terceiro Setor. Esta prática contribui para a redução do número de mortes e de portadores de doenças e, por outro lado, possibilita oferecer atenção mais ágil e de alta qualidade a um contingente menor de pacientes. O quadro atual da AACD exemplifica bem a questão. A entidade é referência internacional de qualidade no tratamento e reabilitação de portadores de deficiências físicas, mas não consegue dar conta da demanda gerada pela ausência da cultura preventiva no País.
O autor, Eduardo de Almeida Carneiro, é presidente voluntário da Associação de Assistência à Criança Deficiente.