Embora a teoria defendida pelo médico italiano Cesare Lombroso esteja superada, ela deixou muitos “rastros” no Brasil, segundo a professora doutora Ana Lúcia Pastore Schritzmeyer, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP).
De acordo com ela, os principais “rastros” da teoria lombrosiana são os preconceitos relacionados ao fenótipo das pessoas, ou seja, relacionar a cor da pele e certos traços físicos a uma tendência criminosa. “Tal postura está presente no ‘olhar clínico’ de policiais que, por exemplo, em uma blitz, revistam preferencialmente negros ou mulatos”, relata a professora.
O racismo e outras formas de preconceito também são encarados por Ana Lúcia como uma prova de que traços físicos são rotineiramente associados a traços da personalidade.
“Infelizmente, em muitos cursos de direito e de medicina, ainda hoje a teoria lombrosiana é passada, de algum modo, aos alunos. Ou seja, em um País que se diz democrático e que deseja reconhecer seus cidadãos como tendo livre arbítrio, algo geneticamente determinado é usado como desculpa para disfarçar desigualdades sociais e econômicas”, critica.
Uma lei aprovada em 1907 no Estado de Indiana, nos Estados Unidos, mostra como a sociedade naquela época chegou a ser influenciada pelas idéias de Cesare Lombroso. Considerando a hipótese de que a hereditariedade desempenhava um papel importante na transmissão da criminalidade, do idiotismo e da imbecilidade, o Estado passou a permitir a castração dos criminosos tidos como incorrigíveis.
Quando os peritos e membros do conselho superior julgavam que não havia nenhuma probabilidade de melhora moral do indivíduo, os cirurgiões eram autorizados a torná-lo infecundo.