Na prática é quase impossível entender plenamente o contexto do século XX, pois o conhecimento dos teóricos é precário e irregular no campo da história contemporânea, como seria de se esperar numa época de extraordinárias transformações. Para alguns estudiosos é intrigante o fato do mundo da moda e o das artes ter percebido com anos de antecedência o colapso da sociedade liberal que culminou nas duas grandes guerras mundiais. Porém, designers e artistas são sensíveis e antenados com seu tempo, sentindo a terra tremer sob seus pés a quilômetros de distância e o tema dos “notoriamente desligados” pensando a atualidade aconteceu sempre. No princípio do século XX essa postura tornou-se mais engajada e as mudanças tiveram conseqüências políticas e culturais. Embora a vanguarda fosse um fenômeno da crise de valores burgueses, o fato de tentar alterar o sistema denota o enfrentamento de uma visão de mundo ultrapassada. Mas o reflexo da transgressão, da banalização do extraordinário e do experimentalismo vão permanecer em surdina até os anos 50. Nesse momento um novo impulso tecnológico revolucionou o mundo e as artes do modo mais óbvio: tornando-as onipresentes.
O impacto da vanguarda e da violência sensorial contida nos manifestos e filmes do futurismo, do surrealismo e no cineasta Eisenstein foram transpostos para o cinema comercial. As artes refletiram idéias e crenças do contexto da guerra fria e em seguida a contestação dos anos 60 via contracultura. Na década de 80, emissoras de rádio levavam os sons à maioria das casas sendo ouvido em toda parte. Embora a televisão não possa ser comparada ao rádio, ela domesticou a imagem em movimento. O aparecimento do videocassete levou toda uma gama enorme de filmes para dentro de casa. Com a disseminação dos computadores domésticos a telinha transformou-se no elo visual do indivíduo com o mundo. Contudo a técnica não apenas tornou a arte onipresente, alterou a maneira como ela é percebida. Para Marshall McLuhan entre o homem do neolítico e o da eletrônica não existem grandes diferenças, pois como nós, ele vivia numa espécie de gradiente zero. Não se especializava, mas encarava a totalidade do meio como o lugar onde cumpria adquirir habilidade perceptiva. Conclui-se daí que o fenômeno neolítico deflagrou a primeira revolução tecnológica e organizacional como resposta ao meio ambiente. O que teria levado esses seres humanos à representação e qual a significação de seu gravar, pintar, talhar, senão sua vontade de eternizar a imagem evidenciando sua força.
Hoje, quando a recuperação da informação é instantânea, à distância entre o período do neolítico e o contemporâneo parece enorme. Mas, tal qual os homens de antigamente, os da era eletrônica tentam educar suas percepções relativas a um ambiente total incluídas aí todas as culturas anteriores. A necessidade de equilíbrio fisiológico e psicológico significa que qualquer impacto sensorial novo exige como complemento uma sensação familiar. Com a sinestesia nas artes e os fenômenos eletrônicos não visuais nas ciências, além dos avanços da tecnologia da informática, a humanidade caminha a passos largos para uma cultura gradiente zero, com todas as formas de experiência sensível recebendo atenção ao mesmo tempo. Nesse contexto o termo pós-modernidade aparece em oposição à modernidade.
Como observou Walter Benjamin, a época da reprodutibilidade técnica converteu não apenas a maneira como se dava à criação, como tornou o cinema e seus derivados a arte central do século, mudando também a maneira como a humanidade percebe a realidade e sente o mundo e a arte.
A autora, Janira Fainer Bastos, é doutora em Estética e História da Arte. Aposentada da Faac-Unesp leciona no curso de Design do Iesb