Há uma certa “trapaça Kansas City” mencionada na seqüência inicial de “Xeque-Mate”, que estréia hoje no cinema. Quem explica do que se trata é um personagem misterioso em uma cadeira de rodas (Bruce Willis), que aparece subitamente em um deserto terminal de embarque para conversar, sem razão aparente, com um passageiro solitário. Em linhas gerais, explica ele, a jogada consiste em simular que se vai para um lado quando o objetivo é se dirigir para o outro.
Blefe. Mais a ver com jogos de cartas, por exemplo, do que com movimentos do xadrez, evocado só no título brasileiro. Feita essa apresentação, que usa em flash-back uma história ilustrativa sobre apostas em cavalos, ninguém poderá mais dizer que não foi avisado sobre os procedimentos tortuosos do filme. Nada é o que parece, às custas de um punhado de informação que se omite do espectador até o final, sem que o processo esteja claro.
Ao fazer isso, o quinto longa-metragem do diretor escocês Paul McGuigan (“Paixão à Flor da Pele”, “Os Gângsteres”) tem um pouco de “Os Suspeitos” (1995): a intriga caminha à base de relatos, mas quem disse que relatos correspondem à verdade? E que a verdade pode ser alcançada? Outro tanto do argumento - primeiro trabalho para cinema do roteirista de TV Jason Smilovic (do seriado “Karen Sisco”) - flerta com o tom “esperto” de humor negro de filmes como “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes” (1998).
No fio que se estabelece entre esses dois registros bem diferentes, caminham diversos personagens, cujas relações demoram a ficar claras. O de Bruce Willis, por exemplo, não é flor que se cheire, e sabe-se disso logo de cara. O mesmo pode ser dito, sem que paire nenhuma dúvida sobre dois gângsteres rivais (Morgan Freeman e Ben Kingsley).
O protagonista, Slevin (Josh Hartnett, que trabalhou com McGuigan em “Amor à Flor da Pele”), envolve-se na batalha entre eles por acidente, confundido com outro homem. Na linha de frente do elenco, há também Lucy Liu, como a vizinha que ajuda Slevin, e Stanley Tucci, como o policial que investiga de onde ele surgiu. Mocinhos parecem estar de um lado e vilões, do outro.
Como ensina a “trapaça Kansas City”, talvez haja um grande blefe por trás de tudo. A própria “trapaça” se revelará um truque quando, nesse policial que se assemelha a uma serpente com duas cabeças, prevalecer uma delas, a da história intrincada que procura despertar prazer no espectador ao finalmente revelar seus mistérios.
Para chegar até ela, no entanto, é preciso lidar com a personalidade do filme que nasce da outra cabeça - ação e violência narradas, às vezes com humor cínico, por uma câmera que adota ângulos insólitos em sua estratégia de camuflagem e ilusão.