Tribuna do Leitor

Violência simbólica


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É só abrirmos as primeiras páginas de nossos jornais, ligarmos a TV, acessarmos a internet, que ela está lá estampada, maquiada ou não, a violência nos circunda e infelizmente não só nos meios de comunicação. Por isso caberia perguntar se vale a pena mais um texto sobre violência, não seria mais uma opinião pretensiosamente inteligente, um pensamento nada original em meio a tantos outros veiculados diariamente pela ávida mass media? A resposta poderá ser afirmativa, porém, penso que reflexões sérias ainda são importantes e no caso da violência, a partir do momento que lhe damos visibilidade, ela existe de fato, passa a fazer sentido que nos preocupemos e reunamos esforços para agir de alguma forma sobre ela.

O conceito de violência é complexo e nada consensual nas literaturas acadêmicas e nas caracterizações de uma determinada sociedade, podemos, portanto falar em violências, já que primordialmente nos impacta é a violência física, aquela que conseguimos olhar seu rastro, sua marca, ação que mais claramente identificamos o violentado assim como o seu algoz. Entretanto, diversas outras formas de violência existem: a violência psicológica, violência urbana, violência sexual, violência na e da escola, apenas para destacar algumas.

Mas quero chamar a atenção para uma violência que não figura nas “paradas de sucesso” da mídia, e, por conseguinte penso não figurarem nas nossas primeiras preocupações a respeito da violência, que é a violência simbólica. É ela que está presente na escola, nos meios de comunicação e em outros contextos através de mensagens subliminares, de duplo sentido, daquilo que passa desapercebido, mas que permanece na nossa mente repleta de intenções ocultas. Inclino-me em refletir tais proposições, pois me encontro um tanto embasbacado com um exemplo fiel de violência simbólica no nosso cotidiano, “aderindo-se” a nossa mais completa inércia e “desatenção”.

Outro dia ao caminhar pelas nobres ruas da região sul de minha cidade, encontrei alguns carros (carrões) com adesivo, de tamanho razoável, afixado na sua parte traseira. O adesivo, um círculo vermelho com um traço entrecortado, assemelhava-se as placas de proibição (proibido estacionar, proibido fumar,etc). Mas para meu espanto, contido nesse círculo encontrava-se o contorno de uma mão humana, uma mão onde o dedo mínimo era inexistente, ou seja, uma mão deficiente. Talvez essa rigorosa descrição nem precisasse ser levada a termo, para que qualquer leitor interprete o que estou falando, dado que tais adesivos afixam-se em abundancia pelos carrões das classes abastadas de todo o Estado de São Paulo (não posso afirmar nos demais cantos do Brasil).

É óbvio que falo de uma propaganda eleitoral de partidários contrários à reeleição do presidente Lula. E antes que algum leitor apressado me acuse de campanha partidária, reitero que não tenho esse compromisso aqui, espero apenas refletir nos motivos que nos levam a cometer tais “deslizes”.

Para além da absoluta indignação, que por vezes nos tornam tão irascíveis a ponto de reagirmos a estes “deslizes” com a mesma atitude violenta e não pensada, proponho a reflexão desses atos como indicadores da vida moderna, para entendermos como estamos agindo, interrogarmos nossas evidências e estranharmos o que nos é familiar.

Nessa laboriosa tarefa é precioso entender nosso desamparo social contemporâneo, como nos aponta o psicanalista carioca Joel Birman em seu livro Mal-estar na atualidade (2000). Esse desamparo dá contornos a fragilidade humana, e intensifica-se na medida em que o social não consegue oferecer oportunidades de convívio com as diferenças, o outro torna-se o objeto para me proporcionar prazer, porém essa busca de prazer é solitária e sempre terá que ser maior que do outro.

Contribuindo para este debate, a filósofa paulistana Marilena Chauí, entende que esse outro é coisificado, entendido como algo externo, um objeto, como uma coisa desprovida de idéias, sentimentos, possibilidades. Pois bem, não é interessante pensarmos novamente naquele adesivo como símbolo de uma sociedade baseada em violentar todo e quaisquer sujeito que seja diferente, que estampe de modo mais evidente nossas diferenças físicas, sociais, culturais? Afinal qual é a marca de um personagem como nosso presidente? A fala de “língua presa” e a deficiência física de seu dedo, que perdera inclusive ao trabalhar numa fábrica metalúrgica em condições de trabalho adversas. Para não destacarmos apenas o nosso presidente, peguemos outro candidato, aliás, a candidata Heloísa Helena, qual sua característica mais destacada pelos humoristas de plantão?

Interessante percebermos, que tais pré-conceitos e estigmas veiculam-se estreitamente com as diferenças das classes sociais, fato também compreendido pelo conceito de violência simbólica proposto por Pierre Bourdier. Nele o sujeito permanece submetido ao discurso social dominante, aceitando aos fundamentos da organização social que lhes atribui lugares marginais. Essa adesão ao lugar onde coloca o sujeito (violentado, o sujeito excluído das benesses da sociedade de consumo) segue-se entre o conformismo e as irrupções de violências. Retornando ao atual pleito presidencial, não é comum ouvirmos: não queremos nunca mais essa raça no poder! Podemos supor que a continuação viria: “eles que voltem para onde eles deveriam estar, longe daqui!... Povo pobre, ignorante!

Assim proponho esse exame ao achincalharmos o outro, este que nos parece tão distante e dessemelhante, já que nesse outro encontraremos muitos mais de nós mesmos do que nossa vã consciência poderia nos permite reconhecer. Afinal como cantava Renato Russo: “quem insiste em julgar os outros sempre tem alguma coisa pra esconder”!.

Rodrigo C. Ballalai

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