Regional

Carro de som comunica mortes em Botucatu

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 3 min

Botucatu – “A empresa funerária .... comunica nota de falecimento. Faleceu hoje, aos ... anos de idade....” Com essa mensagem e a Ave-maria de Gounod de fundo, o publicitário Wenceslau Pinto Filho percorre as ruas de Botucatu (a 100 quilômetros de Bauru). O trabalho, que já é uma tradição na cidade, começou na década de 50 com o pai de “Lau”, como ele é conhecido.

Na época, o Fordinho 36, verde e preto, percorria a cidade toda fazendo propagandas comerciais intercaladas com as notas de falecimento. Atualmente, o veículo continua verde, mas é da Fiat, modelo 147. O dono, bem humorado, insiste em dizer que o Fiat 147 é o mais apropriado para rodar consumindo pouco combustível e numa velocidade média de 8 quilômetros por hora.

Os anúncios comerciais já não fazem parte das mensagens e Lau já não percorre a cidade toda, só alguns locais determinados pelo cliente, mas o objetivo do serviço continua o mesmo: anunciar os mortos para a população.

Quando o carro de som aparece, a população já sabe que algum botucatuense morreu e espera para ouvir o nome do morto, o local do velório e a hora do enterro. Em alguns bairros, os moradores abrem as janelas e portas para ouvir melhor. “O som tem alcance de vários quilômetros. Ele não pode ser muito alto para não irritar o ouvido e nem muito baixo que não dê para entender. Trabalho com uma média de 55 decibéis, por que respeito as escolas, hospitais, Fórum e delegacias”, esclarece Lau.

Sobre o carro, o publicitário diz que prefere o 147 porque ele é pequeno e favorece as passagens. “Quando estou no centro comercial da cidade, na rua Armando de Barros, posso dar passagem para outro veículo, caso contrário atrapalho o fluxo de veículos”, explica o publicitário.

Ele lembra que algumas famílias dispensam o trabalho dele, porque não querem que a morte do parente seja anunciada pelas ruas. “São raros os casos, mas acontece”. Mas, em geral, o trabalho do carro de som é pago pelas três funerárias da cidade.

Mortes infantis

Nos 32 anos de profissão, Lau calcula que já comunicou a morte de mais de 20 mil pessoas. “São aproximadamente 60 mortos/mês”. Mesmo com toda a experiência, ele comenta que ainda se emociona com determinados casos.

“A morte violenta de crianças e adolescentes me emociona, me embarga a voz na hora de gravar. Me conformo quando eles morrem porque estão doentes, mas quando são mortos no trânsito ou são vítimas da violência urbana não dá para encarar”, afirma.

O trabalho do publicitário também tem seus ‘espinhos’. “Houve uma época em que morreram três amigos meus, seguidamente, no prazo de 30 dias. Fiz os anúncios, mas sofri. Logo depois, veio a depressão. Eles tinham a minha idade e a gente jogava bola juntos. Foi uma coincidência eles morrerem num prazo curto. Aquilo me abalou muito”, relata.

Para se livrar dos espinhos da profissão, Lau aposta no esporte e no lazer familiar. “Eu jogo bola e dou muita risada com os meus amigos. Me dedico aos meus familiares porque a morte não avisa quando vai chegar”, diz.

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Emoção

Botucatu - Dentre as cerca de 20 mil mortes anunciadas em Botucatu pelo publicitário Wenceslau Pinto Filho, o Lau, as mais difíceis foram as de seus parentes. “Eu anunciei a morte do meu irmão, do meu sobrinho, do meu pai e de minha mãe. Foram as mais complicadas porque eu estava sentindo essas perdas”, relata.

Quando comunicava a morte do pai, Lau ‘trombou’ com um amigo que, mesmo antes de ouvir o anúncio, brincou. “Esse meu colega tem uma moto e quando passa por mim sempre diz: faturou mais um? Naquele dia, ele disse isso antes de ouvir quem era o morto. Quando ouviu e percebeu o erro, voltou e pediu desculpas. Somos amigos até hoje”, conta Lau.

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