Moscou - O presidente russo Vladimir Putin acusou ontem a vizinha Geórgia de comportar-se como a polícia secreta de Stalin, alimentando um desentendimento desencadeado com a prisão de quatro oficiais russos na semana passada acusados de espionagem. Putin convocou uma reunião urgente de seu conselho de segurança, perto de Moscou, para discutir a crise.
O presidente russo descreveu as ações da Geórgia como “sinal do legado político de Lavrenty Pavlovich Beria, tanto no Interior do país quanto na arena internacional”. Beria, que como Stalin era georgiano étnico, dirigiu a polícia secreta NKVD, que promoveu o expurgo implacável de milhões de cidadãos soviéticos nos anos 1930 e 1940. Ele também supervisionou o programa de bomba atômica de Moscou.
Numa guerra de palavras que vem se intensificando, a Geórgia havia anteriormente acusado Putin de reunir-se secretamente com líderes de movimentos separatistas regionais georgianos e apoiar a causa deles. O chefe de política externa da União Européia, Javier Solana, falou ao telefone com o presidente georgiano, Mikhail Saakashvili, no sábado, exortando-o a encontrar uma solução rápida para a crise e oferecendo assistência.
A Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE), que tem 56 membros e à qual pertencem tanto a Geórgia quanto a Rússia, pediu aos dois lados para absterem-se de provocações e abrirem um diálogo. O presidente em exercício da organização, Karel De Gucht, disse que está mantendo contato estreito com os chanceleres de ambos os países e está pronto a viajar para a região, se for necessário.
Embora a prisão dos oficiais russos na quarta-feira tenha sido o estopim do desentendimento mais recente, as relações entre a Rússia e seu pequeno vizinho meridional já vinham se agravando sem parar há meses. A Rússia rejeita a política abertamente pró-ocidental seguida por Saakashvili, que inclui a busca por incluir a Geórgia na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), e as críticas que o presidente georgiano faz a Moscou.
A Geórgia acusa a Rússia de alimentar o sentimento separatista na Abkházia e na Ossétia do Sul, duas regiões da Geórgia que se afastaram do governo central no início dos anos 1990 e querem unir-se à Rússia.
Saakashvili quer que elas voltem para seu controle. As autoridades georgianas disseram que Putin se reuniu com líderes das duas regiões no sábado em Sochi, às margens do Mar Negro, onde Putin estava trabalhando na semana passada.
Líderes da Abkházia e da Ossétia do Sul, respectivamente Sergei Bagapsh e Eduard Kokoity, fizeram parte da lista de “convidados estrangeiros” presentes em um fórum sobre investimentos realizado em Sochi na sexta-feira, com a presença de Putin.
Desde que a crise começou, na semana passada, Moscou já retirou a maioria de seus diplomatas da Geórgia. Além disso, chegou a anunciar a suspensão da retirada gradativa de suas tropas de duas bases militares russas na Geórgia que são resquícios dos tempos soviéticos. Essa decisão foi revista por Putin, que ordenou ao Ministério de Defesa para continuar a retirada.
A Rússia também deixou de emitir vistos de entrada para cidadãos georgianos, medida que deverá provocar muitas dificuldades na Geórgia, país pobre de 5 milhões de habitantes onde muitas famílias dependem de remessas de dinheiro enviadas a elas por familiares ou amigos que trabalham na Rússia. A Geórgia depende da Rússia para seu suprimento de gás, e a estatal energética russa controla boa parte da eletricidade distribuída no país também.
O Ministério do Interior da Geórgia divulgou um vídeo que parece mostrar um georgiano identificando um dos oficiais russos entre vários suspeitos e dizendo que tratava-se de um espião que o tinha recrutado.
O ministério informou que um homem da Abkházia foi morto e dois policiais georgianos foram feridos numa troca de tiros ocorrida no sábado perto da fronteira “de facto” entre a Geórgia propriamente dita e a Abkházia.