República Velha. As oligarquias cafeeiras paulista e mineira dominavam o cenário político. A política do café-com-leite aprofundava a desigualdade social que já assombrava grande parte da população brasileira. Depois da luta armada e muito sangue derramado, Washington Luiz foi deposto e Getúlio Vargas foi aclamado pelo povo como símbolo da esperança que os novos tempos anunciavam. Lindo de se ver.
O que Vargas conseguiu ocultar por meio da propaganda e da ditadura, mais tarde foi revelado pela história: o tal símbolo da esperança era, na verdade, um ego sensível, oportunista, capaz de atitudes detestáveis para ser idolatrado pelo povo, se manter no poder e usufruir de seus benefícios. Ora, qualquer semelhança com o nosso atual presidente da República não é mera coincidência! No entanto, Lula, que costuma se comparar com freqüência ao tal “pai dos pobres”, conseguiu a façanha de mostrar sua verdadeira face antes mesmo de chegarmos a uma perspectiva histórica segura para obter conclusões.
Esqueçamos a figura do menino pobre de Garanhuns e a do torneiro mecânico do ABC Paulista. Elas não existem mais, bem como o discurso radical peculiar às primeiras tentativas frustradas de chegar à presidência.
Lula vem de uma estrutura sindicalista que se diz subversiva às ordens patronais. Contudo, é uma grande bobagem acreditar que os sindicatos, hoje, lutam sinceramente pelos interesses do trabalhador. A maioria dos militantes pode até estar bem intencionada, mas é péssima estrategista. Os que se destacam em perspicácia, chegam à diretoria dos sindicatos e, amparados por várias regalias e pela estabilidade no emprego, utilizam os métodos mais provincianos para se manter onde estão: surras, ameaças de morte e demissão (sim, não se iludam, eles são subsidiados pelos patrões), calúnias, difamações e eleições fraudulentas. Ironias à parte, esse cenário é fruto do modelo trabalhista tão elogiado durante a Era Vargas.
Mesmo conhecendo o perigo de conclusões generalistas, me arrisco em dizer que Lula indubitavelmente chegou à presidência por ser o mais inteligente entre os proprietários desse discurso hipócrita de luta pela causa operária.
Portanto, me recuso a votar em um suposto desavisado crônico para escolher “o menos pior”. Votei no Lula em 2002, mas este processo eleitoral fez com que eu me sentisse uma cidadã brasileira derrotada, ultrajada, desrespeitada, traída. Ainda que esta atitude não mude nada, no segundo turno, meu voto é NULO. Afinal, com Lula ou Alckmin, o caos social do país permanecerá amplamente ignorado pelo corrente modelo de governo que prioriza um cenário favorável a lucros bancários recordes enquanto milhões de brasileiros morrem de fome.
Silvia Ferreira, RG 43.905.725-5