Cultura

Com o olhar no ‘Cotidiano’

Clarissa Castiglione
| Tempo de leitura: 3 min

Embora tenha mais de 40 anos de profissão, essa será a primeira vez que o editor de fotografia do Jornal da Cidade, Quioshi Goto, tem uma mostra individual de seu trabalho. “Cotidiano” apresenta, a partir de hoje na Galeria dos Correios, imagens que revelam o dia-a-dia da população de Bauru.

A mostra compõe as ações comemorativas do Dia Mundial dos Correios, com 20 imagens que o fotógrafo captou durante os últimos anos em Bauru. As fotos são coloridas e digitais e retratam, além da rotina da cidade, o trabalho do repórter fotográfico.

Com 33 anos de JC, Quioshi iniciou sua carreira por imposição do pai, um tintureiro apaixonado por fotografias. “Ele gostava muito de fotos e decidiu me mandar, com 12 anos, para São Paulo para estudar fotografia”, relata. Trabalhou em estúdio fotográfico, cobriu casamentos, aniversários e eventos em geral até 1972, quando foi chamado para compor a equipe de profissionais nas novas instalações do JC.

“Até então, nunca havia pensado em fazer fotografias jornalísticas. Entrei para o jornal num momento de expansão, em que o sistema off set estava sendo incorporado. Nessa época, havia somente dois fotógrafos, Celestino di Stefani e Rui Bigios Gomes, que foi quem me trouxe para o jornal”.

Quioshi diz que o convite para a mostra foi aceito depois de muita insistência dos amigos, e reforça que é muito importante ao fotógrafo expor seus trabalhos, uma vez que, quando uma imagem é exposta, ela não pertence mais a ele, e sim à comunidade. “Uma foto publicada hoje deixa de ser novidade amanhã. Porém, entra para a história, pois revela um momento único”.

Um dos muitos momentos registrados que não estará na mostra, mas que Quioshi faz questão de lembrar, foi a explosão ocorrida na Avenida Nações Unidas, em 1976. “Foi uma história muito triste, uma avenida inteira sendo explodida. Fui o primeiro a chegar no local do acidente”, relembra. Infelizmente, os negativos que captaram esse acontecimento foram apreendidos pela ditadura e até hoje não foram recuperados. “Como o presidente Ernesto Geisel iria passar pelo local naquele dia, o acidente foi investigado como atentado”, explica o fotógrafo, que teve suas imagens publicadas nas capas dos maiores jornais do País.

Recentemente, outra imagem triste foi clicada pela máquina de Quioshi: a de um ônibus incendiado pelo PCC. “Registrei um dos momentos de aflição e desespero de toda uma população que precisa de (transporte) coletivo e, por causa desse ato, ficou sem”.

Seus 33 anos estão arquivados em negativos e CDs. “Se for mostrar tudo o que eu tenho, não cabe no Correio”, brinca Quioshi que revela que existe um projeto, em parceria com o JC, de lançar um livro com histórias vividas e fotografadas por suas lentes em mais de três décadas de profissão.

A era digital facilitou muito, principalmente nas redações de jornais. Segundo ele, no tempo do negativo, demorava-se cerca de uma hora para ter a foto pronta. Hoje, em um minuto, a imagem já pode ser usada. “O disparo da (câmera) digital é lento, fazendo com que se perca muitos lances. Tem que prever um pouco mais os momentos do que com uma câmera analógica”.

Questionado se já aprendeu tudo sobre fotografia, Quioshi cita o pensamento de um fotógrafo: “Cada dia que se passa, mais se aprende. Aldire Guedes, fotógrafo especialista em foto aérea, sempre falava que quanto mais que se fotografa, mais se aprende, e com mais de 80 anos de idade, ele ainda não tinha aprendido o que é fotografia”.

Serviço

A mostra “Cotidiano” pode ser visitada na Galerias dos Correios (Praça Dom Pedro II, 4-55, entrada B), das 9h às 17h. Informações pelo telefone (14) 4009-3639.

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