Cultura

Novo pop retrô

Diego Molina
| Tempo de leitura: 2 min

Com a recente explosão do rock’n’roll, a música pop – divertida e inventiva – parecia estar renegada ao passado ou a ícones do passado/presente que ainda sabem mastigar o que acontece ou já aconteceu por aí e reciclar tornando tudo mais acessível ao público – vide Prince, Black Eyed Peas e Madonna em seus últimos álbuns.

“FutureSex/LoveSounds”, segundo CD da carreira solo do ex-líder do ‘NSync Justin Timberlake, não é divisor de águas nem aponta novíssimos rumos, mas consegue subverter conceitos do novo rock, do R&B, da dance music e do hip hop para criar uma sonoridade retrô-futurista – o que, para um ex-integrante de boy band, já é grande feito.

“Justified”, primeiro álbum solo de Timberlake, de 2002, era irregular demais para definir a proposta de uma carreira ao artista-cantor-dançarino-compositor-ator. Enquanto algumas canções carregavam ainda o ranço da produção baba do ‘NSync e de toda a dezena de boy bands surgidas nos anos 1990, outras perdiam-se nas referências (ou reverências) a Michael Jackson, Prince e Steve Wonder. O bom moço – e branco – tinha ídolos na black music mas derivava mais para um George Michael do que para David Bowie.

Munido de mais experiência e alguns dos mais renomados produtores da música atual, como Timbaland, will.I.Am e Rick Rubin, Timberlake assume postura de ousadia – apesar de ousar menos do que poderia. Repleto de vinhetas e interlúdios, o disco é amarrado pelo tal conceito da sexualidade do futuro. Em sua última edição, a revista “New Musical Express” brincou que Timberlake e a cantora Beyoncé fazem parte de uma nova geração de artistas completos, espécies perfeitas que, se tivessem filhos, dariam origem a uma nova raça superior.

Essa sexualidade dinâmica nos timbres é alcançada com sintetizadores antigos e guitarras. “SexyBack”, primeiro single do CD, praticamente abandona linhas de baixo para viajar em um riff electro-rock e quase nada mais. “Chop Me Up”, com participação de Three 6 Mafia, por outro lado, cobre um rap áspero com grooves setentistas, e “Love Stoned/I Think She Knows Me” abandona a sombra de Michael Jackson pelas guitarras.

Além de “SexyBack”, o disco não tem outros hits evidentes, ao contrário do novo CD de Beyoncé - para ficar na comparação dos dois nomes fortes na música pop americana – que é o resumo do melhor de sua carreira em seqüência, faixa após faixa. “FutureSex/LoveSounds” tem camadas e sonoridades às vezes encobertas pelos agudos e falsetes do artista, que se dá melhor quando os abandona ou os utiliza apenas para complementar as canções. “My Love” e “Dawn Girl” são duas delas.

A imagem da capa, com o cantor pisando em um globo de espelhos, pode incutir a idéia de destruição e reinvenção da música pop. “FutureSex/LoveSounds” não chega lá nem está perto, mas Justin Timberlake está no caminho.

Comentários

Comentários