No decorrer de minha existência nunca soube o significado do termo “ser feliz”. Minha vida sempre foi muito sofrida. Quando ainda menina larguei os estudos para poder sustentar meus familiares. Amadureci muito cedo e aprendi coisas da vida que não estava preparada para aprender.
Ao completar 20 anos me tornei mãe e desde então tudo mudou na minha vida. Quando engravidei do meu primeiro filho, planejei um milhão de coisas: como ele se chamaria, onde gostaria que estudasse, o que seria quando crescesse... Eram centenas de planos e planos.
Minha filha nasceu com 7 meses e pesando apenas 1 quilo. O nome escolhido para ela foi Joyce. Minha pequena ficou internada 46 dias e tinha alguns problemas de saúde. Logo em seguida os médicos me disseram que ela precisaria de alguns cuidados. Foi aí que começou mais uma luta em minha vida. Fiquei um mês e 15 dias com ela no hospital. Quase não tinha tempo para cuidar da casa. Minha filha passou por oito cirurgias nos olhos, precisou de um transplante de córnea.
Houve meses em que meu marido não recebia pagamento. Então sua patroa, várias vezes, levou leite e as passagens para cuidar da menina. Nos dias em que eu ficava em casa, tinha que fazer faxinas, bolos e salgados, pois as despesas eram enormes. Quase não tínhamos tempo para nos divertir.
Depois de três anos, engravidei novamente e a luta continuou. Ia ao Centrinho, viajava para Botucatu, onde havia iniciado um tratamento na Joyce, e fazia faxinas. Certo dia, saímos bem cedo e fomos dar um passeio. Quando estávamos voltando, sofremos um acidente. Batemos o carro e quase morremos. A Joyce ficou algum tempo internada na UTI.
Então veio mais uma preocupação. Meu segundo filho estava com alguns problemas de saúde, mas graças a Deus não eram graves. E todas as vezes que ia para Botucatu, deixava o menino com meus vizinhos, que eram muito compreensivos e me deram muita força. Muitas vezes precisei levar os dois ao Centrinho. Certa vez quando eu estava voltando de lá encontrei uma senhora em frente sua casa e lhe pedi água. Desde então encontrei um anjo em minha vida. Sempre me ajudava com os passes, roupas e até óculos para a Joyce, pois eles precisavam ser trocados a cada seis meses.
Nessa época meu marido e eu trabalhávamos até durante a madrugada. Então resolvemos montar um bar. Era mais um serviço à vista, sem contar que eu estava grávida do meu terceiro e último filho. Nessa época, tinha 26 anos. Meu marido começou a trabalhar e passei a cuidar da Joyce, do Jean, do Jadson, do bar e da minha mãe, que não estava muito bem de saúde.
Alguns anos depois, resolvemos montar uma padaria. Nessa época eu estava muito cansada de sofrer. Sem falar que várias vezes brigava com meu marido. Eram muitas as dificuldades e não nos entendíamos. Foi então que entrei em crises, fiquei internada com estresse, uma depressão profunda e precisei fazer um longo tratamento para me recuperar. Não podia mais nem cuidar de meus filhos nem muito menos de minha mãe, que foi passar uns tempos na casa de minha irmã mais velha. Passado seis meses, ela ficou muito doente e faleceu. Aquilo foi a gota d’água para mim. Não suportei perdê-la, eu a amava muito.
Alguns dias depois de seu falecimento, tentei o suicídio. Não pensei em ninguém, pensei que assim acabaria com os meus problemas. Graças a Deus, não aconteceu nada de trágico. Voltei para o tratamento e fiquei mais oito meses tomando remédios e fazendo a terapia com um psicólogo. Então me recuperei. Comecei a reconstruir minha vida, voltei ao trabalho e desisti de tomar os remédios.
Hoje trabalho na minha padaria, faço entregas e asso algumas fornadas de pães. Meu filho Jean, de 11 anos, me ajuda no balcão e já aprendeu a fazer alguns doces. A Joyce já vai fazer 15 anos, têm deficiência auditiva e visual, mas é muito inteligente.
E os meus problemas? Acho que hoje eles é quem desistiram de mim.
Eu