A depiladora Roseli Bronzato, 43 anos, foi obrigada a abrir mão do conforto e de uma série de regalias depois que se separou do primeiro marido, há 16 anos. Na época, com dois filhos para cuidar, ela teve de fazer um sacrifício extra para poder sustentar a casa. Cuidou sozinha dos filhos durante oito anos, até encontrar o segundo marido, com quem teve mais um filho. Depois de nove anos de casamento, nova separação e, de novo, Roseli voltou a ser a única fonte de renda da família.
Assim como ela, outras 2,7 milhões de trabalhadoras eram as principais responsáveis pela renda familiar em agosto último em seis regiões metropolitanas do País (São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Salvador, Recife e Porto Alegre), segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A partir de dados coletados na Pesquisa Mensal do Emprego (PME), o instituto constatou que as mulheres responsáveis pelos domicílios representam quase 30% da população feminina ocupada nesses locais. Em agosto de 2002, a porcentagem era menor, cerca de 28%.
A vendedora Cleide Laina Moreno, 30 anos, vive essa situação há um ano. Desde que o marido perdeu o emprego de cobrador de ônibus coletivo, é ela quem sustenta a casa. Enquanto ele não voltar a trabalhar, todos os gastos “supérfluos” estão suspensos. “Hoje, só gastamos com o que é essencial”, revela. Despesa com passeios de final de semana, compras fora do planejamento e presentes para a família, nem pensar.
No supermercado, só vai para o carrinho os produtos que estão na promoção. Roupa nova para ir a um casamento está fora de cogitação. Sapato novo, só quando o usado furar. Para comemorar o aniversário de alguém da família, um bolo pequeno basta. “Vamos levando assim até meu marido arrumar um emprego”, comenta. O casal tem um carro e uma moto na garagem, mas só saem de moto porque o consumo de combustível é menor.
Com o salário que recebe como vendedora, Cleide conta que consegue pagar “contas básicas”. Quando surge algum gasto que não estava previsto, o resultado são contas em atraso. “Ás vezes, eu peço para algum amigo passar uma compra no cartão de crédito dele para eu poder pagar no mês que vem.” Assim, Cleide vai levando a despesa do lar. Segundo ela, o marido conseguiu alguns “bicos”, mas nada que pudesse aliviar o aperto nos gastos domésticos.
Dez anos de espera
No caso da manicure Isabel Cristina Fainer, 48 anos, mais conhecida como Xuxa, a restrição nas despesas já dura muito mais tempo. Faz dez anos que seu marido está desempregado. Como conseqüência, durante todo esse tempo, é ela quem vem bancando os gastos da casa. Ela tem dois filhos. Um deles, Rafael, 25 anos, trabalha, mas o dinheiro fica com ele e a mãe ainda ajuda a pagar metade da faculdade. O filho mais novo, Guilherme, 17 anos, estuda em escola pública, o que representa uma bela economia.
A situação, segundo Xuxa, obrigou a família a cortar certos gastos, mas nada radical. O que mais foi afetado foi a reforma da casa, que teve de seguir em ritmo bem mais lento do que há dez anos. Mesmo depois de tanto tempo, a reforma ainda não foi concluída. “Ainda falta a pintura”, diz ela. Os passeios também ficaram mais raros.
Xuxa acredita que a idade do marido, hoje com 52 anos, é um dos principais empecilhos para que ele consiga um novo emprego. Em razão disso, o máximo que tem conseguido são alguns “bicos”. Como compensação, ela conta que o marido ajuda no serviço de casa. É ele quem faz a comida, limpa a casa, leva o filho mais novo ao médico para tratar da diabetes, agenda as consultas, os exames e outros serviços que sejam necessários. “Como eu trabalho até tarde, ele cuida de tudo em casa”, comenta.
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Jogo de cintura
Para Roseli Bronzato, ser a única fonte de sustento da família é “complicado” e exige muito “jogo de cintura”. O filho mais velho tem 18 anos, depois vem uma filha de 16 anos e o caçula de 7 anos. Segundo ela, a única ajuda que recebe é meio salário mínimo pago pelo segundo ex-marido como pensão. Viagens, rodízio de pizza, roupas de marca e outras “mordomias” foram riscadas da lista da família. As prioridades são outras. “Procuro ter tudo que é preciso, mas só o básico”, diz.
Segundo Luciene Kozovitz, analista da pesquisa do IBGE, o aumento da participação da mulheres como as principais responsáveis pelo pagamento das despesas domésticas é uma tendência que vem se consolidando nos últimos anos. De acordo com ela, a situação está relacionada a mudanças socioculturais, como a emancipação feminina e a redução do número de filhos – muitas vivem sozinhas ou com os filhos, sem marido.
Ainda de acordo com a pesquisa, apenas 29% das mulheres que sustentam seus domicílios têm carteira assinada. Outra conclusão do levantamento é que as “mães de família” têm em média 43,5 anos de idade.