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Bauru tem gêmeos de peles diferentes

Luiz Galano
| Tempo de leitura: 5 min

Um bebê com pele clara e cabelo loiro e seu irmão gêmeo, com pele escura e cabelo encaracolado. O que parece ser incomum no velho continente, já que um especialista afirmou que o caso acontece uma vez em um milhão de nascimentos, é relativamente mais corriqueiro no Brasil. País com população reconhecidamente fruto de miscigenação entre raças. Pelo menos dois casais, de pai com características afro e mãe com características brancas, tiveram gêmeos com peles de cores diferentes em Bauru.

Os irmãos gêmeos Luiz Filho e Luíza têm 2 anos e são completamente diferentes, principalmente na parte física. O garoto tem a pele e os cabelos claros, assim como a mãe. Já o cabelo e a pela da menina são escuros, características do pai.

“Quando eles nasceram, não era possível identificar que eram tão diferentes. Depois de dois, meses, as características começaram a se acentuar. A gente se assustou a princípio, mas depois nos acostumamos”, revela o pai, Luiz Fernando Alves, funcionário público de 39 anos.

Segundo a mãe, o fato nunca gerou curiosidade por parte do casal, já que o médico da família não explicou o motivo pelo qual os irmãos tinham características tão diferentes. “Ele nunca nos disse que o caso era raro. Só ficamos sabendo depois das reportagens que foram veiculadas durante a semana. Os amigos comentaram e nós começamos a reparar. Achamos diferente”, conta Daniele Cristina Coelho Alves, de 32 anos.

O casal afirma que a personalidade de Luíza é parecida com a do pai, enquanto Luiz Filho herdou as características da mãe. “Ela é mais quieta e fechada. Ele já é mais rizonho e brincalhão”, compara o pai, que diz separar brigas dos filhos a todo momento. “Eles se desentendem muito, mas quando ficamos bravos com eles, os dois se juntam para nos enfrentar”, aponta a mãe, que no momento dá atenção especial para o garoto, que está com catapora.

Mais um

O caso das gêmeas Júlia e Marcela, também de 2 anos, é semelhante ao de Luiz e Luíza, apesar das diferenças físicas não serem tão acentuadas. “Até brinquei com o médico. Disse que havia ganhado um kinder ovo. Preto por fora e branco por dentro”, cai na risada a mãe da gêmeas, Richarla Marquezani Cruz, de 36 anos.

“Foi para não dar briga”, complementa o pai, Célio Roberto Ferreira, instalador de som automotivo de 29 anos. “Até o gênio delas é característico. Comparando com fotos antigas, de quando éramos bebês, dá para perceber que a Júlia é igualzinha a mim e a Marcela é idêntica à Richarla. Hoje vemos isso nos trejeitos e até na maneira de andar”, completa Ferreira.

Mesmo com todos os indícios, os pais não se atentaram para diferença grande na cor da pele entre as filhas. “Só percebemos que eram diferentes mesmo quando vimos a foto no jornal”, revela a mãe. “Agora o médico nos explicou que elas são gêmeas fraternas, que se desenvolveram a partir de óvulos e bolsas diferentes”, completa Richarla, que aponta um fator curioso com relação à gestação das filhas.

“Só soubemos que eu estava grávida de gêmeos aos sete meses de gestação. Esse foi o nosso maior choque. Os médicos sabiam que eu estava esperando gêmeos, mas eles preferiram não revelar inicialmente porque não conseguiam escutar o coração de uma delas, deduzindo que um bebê poderia estar morto. Mas no final estava tudo bem”, explica.

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A ciência explica

O motivo de crianças, embora gêmeas, terem a cor da pele tão diferente uma da outra está na carga genética dos óvulos da mãe. No entanto, para ter peles diferentes, os bebês precisam também, obrigatoriamente, ser gêmeos bivitelinos, ou seja, nascerem cada um de um óvulo diferente, e não de apenas um mesmo que se separa após a fecundação, o que caracterizaria gêmeos idênticos.

Segundo o biólogo e geneticista Esiquiel de Miranda, a herança genética relativa à cor da pele, que os pais transferem aos filhos, tem um efeito aditivo, quanto mais genes para pele escura o espermatozóide ou o óvulo conter, mais melanina (substância que dá pigmentação da pele) será fabricada, e mais escura será a pele da criança.

O especialista explica que tanto o pai quanto a mãe possuem características para os dois tipos de pele, devido à miscigenação das raças no Brasil. No caso de gêmeos diferentes, a mãe produz dois óvulos, um com maior número de genes de pele escura, que é dominante e mais forte, e outro com mais genes de pele clara, que é recessivo e mais fraco. Enquanto isso o pai também produz espermatozóides com as duas características.

“Se um espermatozóide carregado de genes de pele clara ou escura fecundar o óvulo carregado de carga genética de pele escura, o bebê será moreno, já que o escuro é dominante. Agora para o irmão gêmeo ter pele clara é mais difícil. Tanto o espermatozóide quanto o óvulo precisam estar carregados de genes para pele branca, porque ele é recessivo e mais fraco”, explica Miranda.

“E pelo efeito ser aditivo, quanto mais genes com características dominantes, mais escura será a cor da pele. E vice-versa”, completa.

De acordo com o especialista, o fato não é raro no Brasil. “Existe muita mistura no Brasil. Agora, na Inglaterra, isso pode ser mais difícil”, pondera Miranda, que em dois dias explicou para 28 curiosos os motivos pelos quais irmãos gêmeos podem nascer com cor de pele diferente.

Ele revela ainda que, em três oportunidades provou, por meio de exame de DNA, que um bebê branco era filho legítimo de dois afro-descendentes. “É raro, mas é perfeitamente possível, porque eles têm tanto os genes dominantes quanto os recessivos”, alerta.

No entanto, ele atesta que casais brancos, em hipótese alguma, podem ter filhos com características afro. “Se os dois são brancos, os genes de ambos são recessivos. Pode haver uma ligeira variação na cor da pele, mas conter traços extremos não é possível”, revela.

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