A preocupação com a realização pessoal e profissional tem levado um número cada vez maior de bauruenses a adiar a gravidez. Assim como quase todas as mulheres, elas também sonham em ser mães, mas antes querem concluir a faculdade, se possível fazer pós-graduação, arrumar um bom emprego e comprar uma casa ou apartamento. Só depois da vida estabilizada, é chegada a hora de ter um filho ou mais.
De acordo com dados fornecidos pela Secretaria Municipal de Saúde, em 1994, a quantidade de gestantes com 35 anos ou mais representou 6,41% do total daquele ano. Dez anos mais tarde, a porcentagem subiu para quase 10% ).
Se for levado em consideração apenas o número absoluto de mulheres que tiveram filho depois dos 35 anos, o aumento foi de 32% entre 1994 e 2004. A secretaria ainda não divulgou os números referentes ao ano passado.
A tendência em postergar a gravidez é reforçada por um levantamento do Ministério da Saúde, feito na região Sudeste do País. De acordo com a pesquisa, de 1997 a 2002, aumentou em 16% o número de mulheres que foram mães depois dos 35 anos.
A bancária Maria Edna Bagali Oliveira, 54 anos, faz parte dessa estatística. Ela casou somente aos 41 anos, depois de alcançar uma certa estabilidade em sua vida profissional e financeira. Seis meses após o casamento, engravidou. Edna sabia dos riscos que estava correndo com uma gravidez tardia, mas não desistiu do projeto de ser mãe. “É claro que eu tinha medo, mas entreguei tudo na mão de Deus”, relembra.
Ela conta que não tinha intenção nenhuma de evitar uma gravidez, mas também não iria fazer tratamento, caso não conseguisse engravidar naturalmente. Segundo Edna, seu maior medo era que a criança nascesse com alguma seqüela por causa da idade da mãe.
Síndrome
De acordo com o urologista Agnaldo Nardi, que possui uma clínica de reprodução assistida em Bauru, as mulheres que engravidam depois dos 40 anos podem apresentar alterações genéticas, o que aumenta a possibilidade de filhos com síndrome de Down, por exemplo. “Rezei a gravidez inteira para que meu filho não tivesse nenhum problema e graças a Deus correu tudo bem”, comemora a bancária. Segundo ela, mesmo que soubesse de alguma anormalidade na criança, o aborto era algo fora de cogitação.
Hoje, Henrique tem 12 anos e, segundo Edna, nem ela nem o marido Renato, 50 anos, também bancário, têm qualquer dificuldade em acompanhar o pique do filho. “Nosso medo era estarmos velhos demais para nosso filho, mas até agora não tivemos nenhum problema com isso”, afirma.
A dona de casa Sonia Santina Marini Dalfito, 63 anos, também postergou o casamento e a maternidade para além dos 35 anos. Ao perder a mãe aos 21 anos, Sonia passou a cuidar da casa, do pai e dos irmãos – três homens e duas mulheres. Ela só foi cuidar da própria vida quando a irmã caçula casou-se e foi morar em Campinas. Todos os outros irmãos já estavam casados. Sonia era, então, a única solteira da casa.
Foi aí que ela decidiu arrumar um namorado. Não demorou um ano, ela e o comerciante Sinésio ficaram noivos e casaram-se. Isso foi em 1982. Na época, Sonia estava com 38 anos. No ano seguinte, nasceu Daiana, a única filha do casal. Antes, porém, Sonia já havia ficado grávida, mas perdeu a criança.
Ou seja, em menos de um ano, ela ficou grávida duas vezes. Nada mal para alguém com a idade dela. Isso porque depois dos 35 anos, a mulher tem menos óvulos e fica menos fértil. A gestação correu normalmente. Depois que a filha nasceu, Sonia decidiu, em comum acordo com o marido, que não haveria uma segunda vez.
Edna e Sonia fazem parte do universo mundial de 2% das mulheres que deram à luz o primeiro filho depois dos 35 anos. De acordo com um estudo apresentado pela Universidade Estadual de Ohio, essa porcentagem sobe para 14% quando inclui mulheres que tiveram filhos antes e depois dos 35 anos. A maior parte, entretanto, cerca de 84%, encerrou a fase reprodutiva antes dos 35, segundo o estudo.