Tribuna do Leitor

Paraíso ameaçado


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Em frente à minha casa plantei uma árvore da espécie “Oiti”, que está com seis anos de idade, plantada em substituição a um saudoso “Pau Brasil” de que tanto me orgulhava e que um inesperado vendaval em uma madrugada derrubou-o no meio da rua, tendo que ser o seu toro serrado em partes pelos bombeiros. Guardo como lembranças alguns pedaços de seu espinhoso caule. Considero-me o senhor ou feitor desse “Oiti”enquanto ele estiver vivo, pois com uma poda poderia ou não deformá-lo e no futuro, após alguns anos, solicitar autorização para o seu corte alegando uma série de justificativas, fundadas ou não.

Porém não me passa pela cabeça nenhuma dessas hipóteses pois somos grandes amigos e envelheceremos juntos. Sei que, embora apenas um, ele é companheiro e irmão de outras milhares de árvores existentes em nossa cidade, das mais variadas espécies. Árvores, muitas amadas, outras de existência ignorada, um grande número daquelas que chegam a ser até odiadas, pela sujeira na calçada, pelo porte grande e por outros motivos. Todas, indistintamente formam a precária arborização de nossa cidade sem a qual não poderíamos viver. Imaginemos Bauru sem nenhuma árvore! E, em comparação com outras cidades, sabe-se que a nossa está longe do ideal pois há um déficit de árvores. Milhares ainda deverão ser plantadas

No entanto, se existe um déficit do arvoredo urbano que com o tempo poderá ser suprido pela vontade e planejamento das autoridades municipais, existe em alguns arredores de nossa cidade um verdadeiro paraíso ambiental que pouquíssimas cidades do Estado e do País possuem e que se tiverem conhecimento será ponto para inveja e ambição. Refiro-me ao maravilhoso cerrado existente nas cercanias da Unesp, Zoológico e outras áreas, dentro ou não das Áreas de Proteção Ambiental (APAs), objeto de discussão dentro da reformulação do PD (Plano Diretor) da cidade, o qual, se erradicado total ou parcialmente, diferentemente da situação urbana, jamais poderá ser substituído ou recomposto. É uma realidade diferente do meu “Oiti”que atualmente tem seis anos e da arborização da cidade.

Quem poderá precisar a idade dos nossos cerrados? A Mãe Natureza deve ter levado milhares ou talvez milhões de anos para seu aparecimento. A vida do cerrado é um processo de nascimentos e mortes naturais de pequenas e grandes plantas em que a vontade do homem não pode interferir. Essa riqueza que levou um indeterminado tempo para existir – centenas ou milhares de anos- o homem pode destruir com poucas horas-trator, só que não há como planejar a sua substituição por outras espécies ou meios. De nada adiantarão justificativas como cerceamento do progresso, de uma futura compensação por florestamentos ou reflorestamentos pois estes formam grandes extensões de matas mortas que afugentam os animais, pássaros provocando desequilíbrios no ecossistema. Pássaros e animais procurarão a cidade por perderem os seus hábitats.

As grandes matas e cerrados naturais são tão importantes e valorizados hoje em dia que em alguns países do primeiro mundo os governos além de impedirem sua erradicação ou cortes pagam aos seus proprietários, quando particulares, pela conservação dos mesmos tendo em vista os benefícios que promovem às pessoas, à sociedade. São mais rentáveis à qualidade de vida das pessoas do que o retorno que poderia advir dos impostos. Não será o cerrado que impedirá o progresso de nossa cidade pois há inúmeras áreas adjacentes e nobres que poderão permitir o progresso de Bauru. Lembrem-se aqueles que são pela derrubada mesmo em parte e aqueles que defendem intransigentemente esta idéia, de que milhares de animais e aves que lá vivem em harmonia com centenas de espécies de árvores, esperam com ansiedade o destino que lhes está reservado. E, creiam, se pudessem falar, emitiriam um grito de socorro! “No final, nossa sociedade será definida não somente pelo que criamos mas pelo que recusamos a destruir.” (John Saswhill). A escolha é sua.

Joaquim Eliseo Mendes - professor

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