Lula conseguiu uma retumbante vitória, e agora é necessário fazer uma análise do que virá, equilibrada e equidistante de dogmas e preconceitos. A cobrança será proporcional ao voto de confiança renovado. Portanto, será bom se cercar de gente proba, o que não é tão fácil assim, haja vista a fatura que será apresentada pelos aliados. Parece ironia, mas Lula se tornou ainda mais popular ao se aliar àqueles que tanto criticou, com razão, como Delfim, Collor, Sarney, e outros. Pois é, o presidente dos pobres, numa flagrante contradição com seu discurso, soube se tornar amigo das “elites”. Conseguiu ser pragmático, daquela forma que os políticos conhecem muito bem, cercou-se de tudo e de todos, fez de seus ministros cabos eleitorais, se apoiou em prefeitos, cooptou governadores e certamente haverá de angariar ainda mais aliados.
Um capital político eleitoral de respeitável monta, que lhe dará condições de fazer o que é necessário, aquilo que nenhum dos candidatos ousou dizer durante a campanha, onde se convencionou falar somente o que agrada e fazer promessas cujo cumprimento é obviamente impossível. Todos sabem que a força política de um novo mandato costuma decair na proporção direta da passagem do tempo, especialmente agora que Lula não poderá concorrer a um terceiro mandato. Sim, porque o faro da classe política é apurado quando se trata de detectar oportunidades, e mais ainda no tocante a vislumbrar eventuais enfraquecimentos daquela energia captada nas urnas.
Espera-se sejam os condutores da política exterior tão pragmáticos quanto o foi o presidente reeleito, deixando de lado tolices como rejeitar a Alca, ou presentear nações como China e Argentina com bondades que jamais serão retribuídas. O ministro da Fazenda, professor Guido Mantega, de idéias extravagantes, juntamente com a dama-de-ferro Dilma Roussef, ministra-chefe da Casa Civil, garantem crescimento do PIB-Produto Interno Bruto da ordem de cinco por cento, na média. Ambos têm a tentação de remover o presidente do Banco Central, no que são apoiados pelo ministro da Relações Institucionais Tarso Genro, o Dom Quixote da dialética petista, que declarou o fim da “era Palocci”. Para isso, será imprescindível captar recursos, que o governo não tem, da ordem de RS$100 bilhões, segundo o colunista Alberto Tamer, do Estadão, somente para garantir esse crescimento que, todavia, não dependerá só disto. Há que recuperar e ampliar a infra-estrutura, estradas, ferrovias, geração de eletricidade e, por que não, hidrovias. Como dinheiro não dá em árvores e não há mais espaço para se aumentar impostos, será preciso o país estar aberto ao capital estrangeiro.
Não poderá também se furtar de fazer a reforma da Previdência, ou a higidez das contas públicas estará seriamente comprometida. Indispensável também afastar essa ameaça à LRF-Lei de Responsabilidade Fiscal. Sem esta proteção não há melhora das contas públicas, pelo contrário. Resta saber se haverá tolerância do eleitorado se Lula tiver coragem de fazer as reformas necessárias. Resistirá o presidente às pressões de seu partido para afrouxar a política econômica? Pragmatismo é isso, arragaçar as mãos e fazer o que é preciso. Crédito o Brasil tem hoje de sobra, basta demostrar que haverá planejamento e gastos de qualidade. E não prometer demais, economizar discursos, despolitizar as agências reguladoras, o CNTbio, aquela assembléia onde nada se resolve e empaca os trabalhos científicos. Olhar a questão ambiental com reverência, mas sem exageros, resistir à tentação das usinas nucleares, um contra-senso ante o gigantismo de nossas bacias hidrográficas. Das oposições espera-se atuação firme, com responsabilidade. Talvez, livre de fazer campanha, sua ocupação principal desde o iníco do primeiro mandato, possa realmente se ocupar das servidões da governança e pôr mãos à obra. São decisões duras, coisa de estadista...
O autor, Luiz Leitão, é articulista e colaborador do Opinião