Geral

Volta ao mundo a partir de Bauru

Eliane Barbosa
| Tempo de leitura: 6 min

Planejar e querer. Regras infalíveis para quem pretende realizar um dos maiores sonhos de todo ser humano: dar a volta ao mundo. Quem garante é o bauruense José Rubens Maranhão, 44 anos. Há alguns anos, acompanhado da esposa Valéria, 43 anos e também bauruense, e do filho Matheus (na época com 1 ano), ele realizou a façanha de visitar 34 países durante um ano e meio, rompendo com todos os tabus que poderiam ter deixado os seus planos na gaveta.

A viagem foi retratada pela revista Veja na edição de 22 de outubro e prova que, apesar dos custos (eles levaram US$ 120 mil) e dos imprevistos em empreitadas desse tipo, o sonho está ao alcance de todos por meio de planejamento detalhado e a longo prazo.

Engenheiro formado pela Fundação Educacional de Bauru, hoje Universidade Estadual Paulista (Unesp), gerente da maior multinacional do ramo siderúrgico no Brasil, a Gerdau, José Rubens não se intimidou em “pedir a conta” e partir em busca do sonho, possível.

Valéria, sua mulher, fez o mesmo. Entregou sua carta de demissão na Suzano Papéis, onde respondia pelo marketing, e afivelou as malas, não esquecendo do básico para que o filho de apenas 1 ano não tivesse nenhum problema, já que teria que se acostumar a comer de tudo e a dormir em qualquer lugar.

Tudo previamente planejado, incluindo a venda de um carro, o cálculo do que receberiam de indenização pela demissão no trabalho, a compra antecipada de dólares, o aperto dos cintos e a quitação de contas domésticas, mesmo antes do vencimento.

De boy a empresário

José Rubens, que é evangélico, se considera um ser abençoado por Deus. “Tive uma infância muito humilde em Bauru, trabalhei como office-boy no Fórum e fui fiscal da prefeitura, na primeira gestão do Tuga Angerami”, lembra. Valéria também teve uma adolescência modesta, trabalhando numa loja de roupas infantis.

Insatisfeito com o trabalho, foi em busca de novos desafios até ingressar no quadro do maior grupo brasileiro de aço e nunca mais ter qualquer problema financeiro. Tecnóloga, Valéria também surpreendeu na Suzano Papéis como gerente de marketing, cargo para onde retornou depois da viagem.

“Minha mãe e meu pai (já falecidos) lecionaram matemática por mais de 25 anos nas escolas da cidade, entre elas o Mercedes Paz Bueno, e meu tio, Leonardo Paulovich, é doutor em matemática e professor aposentado pela Unesp. Saímos de Bauru em 1988, muito pobres, mas como Deus gosta muito de nós despejou sem medida suas bênçãos sobre nossa família fazendo com que em pouco tempo nossa vida se estabilizasse”, relata Rubens.

Com a vida financeiramente equilibrada, José Rubens e Valéria decidiram ter um filho, Matheus (hoje com 12 anos), que os acompanhou na viagem ao redor do mundo.

“Nós ganhávamos muito bem e ainda temos uma vida estabilizada, mas na época trabalhávamos muito, até 21, 22 horas. Decidimos depois de muito planejamento dar um basta, sair de nossos empregos e fazer a viagem sem qualquer medo de, no retorno, não voltarmos mais para esses cargos tão disputados”, relata o bauruense.

“A partir de uma viagem como a nossa perde-se a preocupação com o material, com o ato de ‘ser mandado embora’. A gente percebe que pode se adaptar às mais diversas situações e lugares”, afirma.

O engraçado disso tudo é que depois de um ano e meio fora do Brasil, 24 horas depois do desembarque em Guarulhos, José Rubens foi convidado a retornar à Gerdau e Valéria, três dias depois, à Suzano Papéis, onde está até hoje.

Conselhos para quem vai

Além do planejamento prévio que requer, claro, dinheiro suficiente para a empreitada, José Rubens, que trabalha sempre com planilhas à distância – a viagem foi planejada dois anos antes e o casal voltará a morar em Bauru em 2007 e já sabe quanto gastará com a mudança, escola dos filhos, reforma da residência etc–, reforça que uma viagem como essa demanda uma virada brutal de comportamento, de padrões.

“É preciso se desapegar totalmente do emprego, do dinheiro, da família... Na época fomos tidos como loucos, principalmente porque não falávamos nada além do português... Mas isso não é um empecilho para realizar um sonho. É preciso ter disponibilidade para corrigir rumos e rotas e adaptar-se a necessidades emergenciais”, enumera.

O casal, que esteve em Bauru no último feriado para acompanhar as obras na residência que os abrigará a partir de 2007, visitou 34 países e tem uma comunidade no Orkut: Volta ao Mundo, visitada por internautas que também sonham em girar pelo mundo, ganhar experiência e retornar ao Brasil com novos planos na bagagem.

____________________

Volta ao lar

O casal José Rubens Maranhão e Valéria, além dos filhos Matheus e Gabriel, voltará a morar em Bauru em 2007. A razão são os filhos. “Estamos investindo em nossos filhos e achamos Bauru a melhor opção para terem uma vida tranqüila. O Matheus já fala alemão e espanhol fluentemente e está estudando inglês. O Gabriel precisa ser alfabetizado”, diz o pai.

Bem-humorado, José Rubens, lembra da época que não tinha dinheiro suficiente para a compra de dois bilhetes aéreos para a primeira viagem de avião que havia planejado fazer com Valéria.

“Juntei dinheiro, fui à loja - a Valéria não sabia pois seria uma surpresa de aniversário -, mas a quantia não era suficiente para os dois bilhetes. Decidi comprar somente a ida para ela e fui para São Paulo de Expresso de Prata. Lá nos encontramos, comemoramos e retornamos a Bauru também de ônibus, felizes da vida e com a caixinha de comida de avião que ela havia guardado para mim”, conta.

Otimista, ele diz que não aceita a existência de imprevistos. “É possível transformar o limão em limonada.”

____________________

Como planejar

Acompanhe as dicas de José Rubens Maranhão e Valéria

Antecedência - Entre fazer um plano detalhado e colocá-lo em prática gasta-se no mínimo um ano e meio. O próprio desenho do roteiro leva meses e detalhes exigem paciência, como preparar os documentos para dar entrada nos vistos e aguardar os intervalos entre as doses de certas vacinas.

Roteiro - Tudo tem de ser muito detalhado. “Fizemos duas listas separadas dos países que queríamos visitar, já marcando os de que não abríamos mão de conhecer. Cruzamos as listagens, colocamos os lugares em ordem de prioridade, agrupamos os mais próximos e ordenamos de acordo com a meteorologia, de modo que pudéssemos ter experiência em neve, por exemplo.”

Pesquisa - “Estudamos cada cultura, pesquisamos sobre cada país, escrevemos para as embaixadas perguntando sobre riscos, alimentação, transporte, religião, clima, atrações, roupa adequada, necessidade de visto e vacinas. Pesquisar na Internet, consultar guias, falar com pessoas que viajaram sempre acrescenta, mas é preciso ter um filtro.”

Finanças - “Pesquisamos até os custos de alimentação em cada cidade. Com a primeira previsão de gastos, fizemos uma planilha de despesas familiares e um plano de ação para reduzi-las. Calculamos quanto iríamos receber de indenização pela demissão no trabalho. Apertamos os custos, vendemos um carro e começamos com boa antecedência a comprar dólares e a aumentar os limites de crédito de cartões internacionais.”

Hábitos - “Nosso filho teve de comer de tudo: comida fria, apimentada, sem sal, leite de soja, entre outras experiências. Para treinar, antes da viagem comíamos pratos típicos dos países que visitaríamos. Para nosso filho se acostumar, às vezes deixávamos que ele cochilasse com barulho e luz acesa.”

Passagens - “Para quem pretende visitar vários países, a dica é a compra do bilhete aéreo de volta ao mundo, conhecido no mercado de turismo como RTW (iniciais de round the world). As alianças entre as companhias aéreas facilitam a compra dessas passagens.”

Comentários

Comentários