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Ao mestre Rodolpho, com carinho

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 9 min

Um entusiasta da educação. Esta é uma das principais características do professor Rodolpho Pereira Lima, 75 anos. Embora tenha se aposentado há mais de duas décadas, ele não deixou o magistério. Continua defendendo as causas da classe e também do ensino básico no País. Conselheiro do Centro do Professorado Paulista (CPP) de 1967 a 1993, voltou a assumir o cargo este ano, após convite de amigos e docentes.

Rodolpho, que já foi vereador de Bauru por dois mandatos e diretor da Escola Estadual Plínio Ferraz, faz questão de participar ativamente da vida política da cidade e do País por meio de artigos e crônicas publicados em jornais – ele é, inclusive, um dos colaboradores mais assíduos da coluna Tribuna do Leitor do Jornal da Cidade. Em suas cartas, o professor busca chamar a atenção da população sobre a importância de se valorizar a educação, bandeira defendida durante toda sua carreira.

Sentimental, ele se emociona ao falar dos fatos marcantes de sua trajetória profissional e sobre sua família. Casado há quase 50 anos com a supervisora de ensino aposentada Francisca Nunes Pereira Lima, ele é pai da professora Suzel Pereira Lima Freitas, que herdou seu talento como docente, e do procurador de Justiça Rodolfo Pereira Lima Jr. Pai e avô “coruja” - como ele próprio confessa -, Rodolpho possui quatro netas e também uma bisneta, com quem costuma passar horas do seu dia-a-dia.

Na última quinta-feira, o professor recebeu a equipe de reportagem do JC em sua casa e falou sobre sua carreira e seu dia-a-dia, além de sua paixão pela arte de educar. Confira os melhores trechos da entrevista a seguir.

Jornal da Cidade - Como o senhor veio para Bauru?

Rodolpho Pereira Lima - Nasci em Jaú e quando tinha mais ou menos 1 ano minha família se mudou para Dois Córregos. Meu pai era engenheiro mecânico e eletricista. Em 1935, fomos para Pederneiras. Depois de lá, meu pai recebeu convite para trabalhar na Estrada de Ferro Noroeste em Campo Grande. E em 1946, viemos para Bauru.

JC-- Sua esposa se aposentou como professora e sua filha seguiu a carreira do magistério. As duas foram influenciadas pelo senhor?

Rodolpho - Meu filho iniciou o curso de engenharia na antiga Fundação Educacional de Bauru que hoje é a Universidade Estadual Paulista (Unesp), mas não gostou e decidiu cursar direito. Insisti para que minha filha também cursasse direito. Ela começou, mas desistiu. Licenciou-se em letras e ingressou no magistério. E a minha esposa é licenciada em história e geografia e pedagogia. Nos aposentamos juntos, em 1983.

JC - O senhor conheceu sua esposa no meio escolar?

Rodolpho - Isto foi interessante. Há 50 anos, havia o tradicional footing na rua Batista de Carvalho, em Bauru, entre a Casa Carvalho e a famosa Lalai, que era o melhor restaurante e confeitaria da cidade. As moças andavam juntas, em um grupo de três ou quatro, na calçada; os rapazes ficavam encostados na parede, paquerando-as. Foi aí que a conheci e onde nossa história começou. O interessante é que ela já era professora de geografia geral do Brasil em Piratininga e pertenceu à primeira turma do corpo docente da antiga Faculdade de Filosofia (Fafil), que hoje é a Universidade do Sagrado Coração (USC).

JC - Quando começou sua carreira?

Rodolpho - Eu trabalhava na Noroeste como escriturário. Naquela época nem havia as faculdades em Bauru. Então fiz o curso normal e no mesmo ano que conheci minha esposa, ingressei no magistério, só que para o curso primário. Fui lecionar em uma fazenda.

JC - Como era o ensino na zona rural?

Rodolpho - Havia escolas masculinas e femininas. Não se falava, mas existia preconceito sexual. Hoje não existem mais classes de meninos ou só de meninas. Além disto, nós éramos obrigados a dar aulas de paletó e gravata. As professoras, muitas vezes, iam lecionar a cavalo e usavam calças compridas, mas chegando na escola, precisavam trocá-las por saias ou vestidos. Elas não podiam entrar em sala com roupas decotadas, eram obrigadas a usar um jaleco.

JC - As regras também eram rígidas para os alunos?

Rodolpho - As moças não podiam usar batom ou esmaltar as unhas. Como hoje existem normas sociais, naquela época havia outras exigências. Não era determinada escola ou diretor, era uma norma social. Por exemplo, uma moça solteira que aparecesse grávida - o que é comum hoje - perdia o emprego, era demitida de imediato porque isto significava uma ofensa moral. Minha geração cresceu com muitos preconceitos: social, sexual, religioso, racial. Quando era criança, em uma mesma rua havia uma separação: em uma calçada tinha um barbeiro para negros e na outra, um barbeiro para brancos. E tudo isto era resquício da aristocracia dos barões do café e escravos. Felizmente isto mudou para melhor. Hoje isto é crime racial. Na questão religiosa também. Nas aulas de religião, os alunos que não eram católicos tinham que sair. Cerca de 98% da população era católica, havia um ou outro espírita ou protestante.

JC - O senhor ia trabalhar a cavalo?

Rodolpho - Sim, porque a escola ficava num sítio. Não havia luz elétrica na escola e também no distrito. As cartilhas só continham textos, sem figuras ou cores. Então era difícil explicar para o aluno o que era mar, por exemplo. Não havia televisão também. Quando vim para Bauru e me formei, passei a lecionar em faculdades. Lecionei na Faculdade de Marília, na atual USC e Instituição Toledo de Ensino (ITE). No início, em Bauru, nos anos 50 a cidade recebia alunos do Brasil inteiro. Hoje Bauru tem várias faculdades de direito. Esta foi minha vida no magistério.

JC - O magistério foi uma das atividades principais de sua vida?

Rodolpho - Sim, foi. Eu não apenas exercia o magistério, mas também participei da associação da categoria, que é o Centro do Professorado Paulista (CPP). Em 1963 houve a primeira greve do magistério público paulista. Em 1965, participei da instalação de uma sede do CPP, na quadra 10 da rua Batista de Carvalho, mas ela ficou pequena e compramos um terreno próximo ao Expresso de Prata, onde hoje é a atual sede. Fui conselheiro de 1967 até 1993, ano em que saí. Este ano fui convidado a me candidatar para a eleição de conselheiros. Fui eleito e voltei a participar do CPP. Ao mesmo tempo que lecionava, era líder da categoria dos professores.

JC - Como foi sua atuação política na cidade?

Rodolpho - Fui eleito vereador em 1976. Depois me candidatei à reeleição em 1988. Foram dez anos trabalhando como vereador. Fui presidente da Câmara em 1981 e 1982. E substituí o ex-prefeito Oswaldo Sbeghen por uma semana.

JC - E hoje, como é seu dia-a-dia?

Rodolpho - É tranqüilo. Acordo e preparo o café, coloco a mesa, faço suco e vou à padaria buscar pão. Quando minha esposa levanta, o café-da-manhã já está prontinho. Em seguida, leio os jornais. Não sou muito de sair, sou mais caseiro.

JC - O que o senhor costuma fazer no seu tempo livre?

Rodolpho - Gosto de ler os dois jornais da terra e também a Folha de S.Paulo. Também aprecio livros. Acabei de ler “JK” e “Princesa Isabel” e achei as obras muito interessantes.

JC - Destaque alguns momentos marcantes de sua vida.

Rodolpho - Na área profissional, fui homenageado com a medalha Sud Minucci em 2002 e, no ano passado, meu nome foi sugerido como patrono da sede do CPP de Bauru, que hoje se chama Centro do Professorado Paulista Professor Rodolpho Pereira Lima. Estes dois fatos foram marcantes na minha carreira porque qual profissional não almeja o reconhecimento? Isto é muito é gratificante. Sair da ferrovia, onde trabalhava há oito anos, e ir para o magistério, também foi marcante. Já na minha vida pessoal, o que marca muito é minha esposa, que está comigo há quase 50 anos, além do fato de chegar a ser bisavô.

JC - Qual seu lema de vida?

Rodolpho - Me julgo muito sentimental. Gosto de relembrar o passado e me emociono ao falar dele. Coleciono e guardo todas as coisas que publico no jornal, por exemplo, além de fotografias da época de vereador, cartas de alunos e placas de paraninfo e patrono.

JC - Em comparação ao passado, o que representa hoje a figura do professor no Brasil?

Rodolpho - Analisando o exercício do magistério, conceituo que ela foi a atividade profissional mais desvalorizada. No caso das domésticas, por exemplo, antes elas não tinham direito a registro profissional. Hoje, uma doméstica ou cozinheira pode ganhar mais do que um professor. O salário base da classe é R$ 600,00. E para o professor com formação universitária, o salário base é R$ 900,00. O docente tem que ter cultura, assinar revistas e jornais para manter-se atualizado, mas com o salário que ele ganha como pode fazer isto?

JC - Como o senhor analisa a educação em Bauru e no Brasil?

Rodolpho - Quando era ferroviário, as ferrovias estavam no auge, a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, a Companhia Paulista de Estrada de Ferro e Sorocabana formavam um entroncamento ferroviário. Saí para ingressar no magistério público, que na época vivia sua idade de ouro. Aposentei e hoje vejo a decadência da ferrovia e do magistério público. Antigamente não havia competidores para os grupos escolares de ensino público. Mas a partir de 1981 e depois da revolução de 1964, começou a decadência da educação, com a idéia da democratização de ensino, a qual pregava que o ensino era muito seletivo porque naquela época quem estudava em escola pública era a elite. Depois que o aluno terminava o primário, ele fazia o exame de admissão para a primeira série, como um vestibular, e 80% dos estudantes não passavam. Quando houve a reforma educacional, em 1971, fundindo o primário e o ginásio e criando a escola de primeiro e segundo grau, veio a democratização. Mas democratizar é uma coisa, baixar o nível de ensino, porém, é outra.

JC - Por quê?

Rodolpho - Hoje fala-se que a escola pública é promoção automática, mas tecnicamente isto é a educação progressiva, que foi adotada a partir de 1971 no Brasil. Podemos analisar isto sob dois aspectos. Um é o pedagógico e o outro, da eliminação e reprovação do aluno. Se fizermos uma análise, na década de 50, tanto a Inglaterra quanto os Estados Unidos adotaram a educação progressiva, mas isto não significava a eliminação ou exclusão da mensuração do aluno. No Brasil, a educação progressiva teve o intuito econômico, porque com a reprovação eram necessárias mais classes. Com a promoção automática, todos são aprovados, mas o aprendizado não é uniforme. Antigamente o professor podia aprovar e reprovar os alunos. O mal do Brasil é desvalorizar a educação básica.

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Perfil

Nome: Rodolpho Pereira Lima

Idade: 75 anos

Cidade de nascimento: Jaú

Esposa: Francisca Nunes Pereira Lima

Filhos: Suzel Pereira Lima Freitas e Rodolfo Pereira Lima Jr.

Hobbies: Ler e ver novela

Livro preferido: Obras sobre filosofia e pedagogia

Filme predileto: Musicais e filme “Dançando na Chuva”

Estilo musical: Canções que transmitam alegria

Música preferida: “Eu Sei Que Vou Te Amar”

Nota 10: Para minha esposa

Nota 0: Para os governantes, que não têm dado atenção privilegiada para a educação básica

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