Lixo espalhado na lateral da rua de terra e num pasto vizinho, ao lado dos barracos. Muitos cachorros na via pública, vários sem dono. É neste local, no Jardim Vitória, em Bauru, que morava um menino de 5 meses que morreu ontem pela manhã vítima de leishmaniose visceral, doença transmitida pelo mosquito-palha. É a segunda vítima fatal de leishmaniose na cidade neste ano, o que revela que a doença continua perigosa, apesar da letalidade ter reduzido em comparação ao ano passado - em 2005 quatro pessoas perderam a vida por causa da doença.
A morte da criança por leishmaniose foi divulgada ontem pela Secretaria Municipal da Saúde, por meio do Departamento de Saúde Coletiva (DSC). A criança havia sido internada no Hospital Estadual (HE) Arnaldo Prado Curvêllo apresentando febre, fraqueza, aumento do fígado e baço, anemia e tosse seca. O tratamento para leishmaniose foi concluído no último sábado, mas a criança apresentou complicações durante a internação, evoluindo para pneumonia e septicemia, informa a assessoria de imprensa da prefeitura.
O DSC aguarda a confirmação do diagnóstico de leishmaniose por parte do Instituto Adolfo Lutz, de São Paulo, mas o caso já foi contabilizado nas estatísticas deste ano com base nos exames preliminares realizados. O DSC informa que a leishmaniose, por comprometer todo o sistema imune do paciente, tem como complicação comum as infecções. Mesmo tratadas de forma adequada, essas infecções podem evoluir de maneira negativa.
Em função disso, as crianças que ainda têm seu sistema imune não-desenvolvido totalmente (especialmente as menores de 2 anos) e os idosos (além de diabéticos e portadores de outras doenças crônicas debilitantes) que já têm essa defesa comprometida, podem apresentar quadros mais graves e assim evoluir de maneira negativa, levando à morte. Nesses casos, a morte é geralmente decorrente de complicações bacterianas e/ou sangramentos.
Ao saber da causa da morte da criança pela reportagem, moradores da favela do Jardim Vitória, onde vivem cerca de 80 famílias, ficaram surpresos e preocupados. Porém, reclamam que é difícil manter o bairro sem lixo. “A gente rastela, põe fogo, mas o pessoal joga lixo de novo. Morador lá de cima, de longe, vem jogar lixo aqui, até bicho morto”, argumenta Ana Lúcia de Lima apontando para o monte de lixo doméstico e entulho a poucos metros de vários barracos e da casa onde o bebê morava.
Com uma filha de 4 anos, ela acha que a alternativa é mudar de bairro. “Aqui é uma área de risco e estamos esperando nos removerem”, diz. Andréa Cristiane Mariano da Silva, que tem filhos de 10 e 4 anos, lembra que o caminhão de coleta não passa na rua de sua casa porque ela é muito estreita, uma ruela. “Tenho que levar o lixo na esquina. Eu levo, mas tem gente que não leva”, conta.
Parente distante do bebê que morreu de leishmaniose, Carmen Fernandes Pedro conta que a família foi para casa de familiares após o enterro, realizado ontem à tarde no Cemitério Redentor. Ela confirma que é difícil manter o bairro sem lixo. “A gente limpa – a prefeitura também já limpou – mas jogam lixo de novo. E tem muito cachorro na rua, com sarna”, completa.
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Letalidade
Neste ano, Bauru contabiliza 51 casos de leishmaniose em humanos, com duas mortes, o que representa 3,92% de letalidade. A primeira vítima fatal foi um morador de rua, que morreu em agosto. Ele também ficou internado no HE por vários dias, mas não resistiu.
No ano passado, foram 36 casos, com quatro mortes (índice de letalidade de 16,66%). Em 2003, quando a leishmaniose foi registrada pela primeira vez em Bauru, foram registrados 17 casos da doença e uma morte. No ano seguinte, 29 casos e três mortes.
Da Redação