Saúde

Dieta reduz risco de infecção pós-cirúrgica

Por Cláudia Collucci | Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

Chamada de imunomoduladora, a dieta envolvida na pesquisa era industrializada e rica em imunonutrientes -ácidos graxos essenciais, arginina e glutamina - capazes de modular a função imunológica. Esses elementos são encontrados na alimentação normal, só que em pequena proporção. “A quantidade de imunomodulantes na dieta industrializada é muito maior, além do que ela é uma fórmula complexa que não tem em todos alimentos”, avalia Dan Waitzberg, diretor do Ganep (Grupo de Nutrição Humana) e um dos coordenadores da metaanálise. Entre os pesquisados, a dieta foi dada, via oral, de cinco a sete dias antes de cirurgias previamente programadas (cardíacas e de cânceres do aparelho digestivo e de cabeça).

Os pacientes continuaram consumindo os nutrientes por uma semana, em média, após a cirurgia. Para Waitzberg, professor da Faculdade de Medicina da USP, os resultados dos estudos abrem uma nova porta para a medicina, no sentido de mostrar meios para reduzir as complicações infecciosas após cirurgias. Ele diz que os estudos feitos na Europa e nos EUA também mostraram uma economia de cerca de R$ 5 mil por paciente que recebeu a dieta.

No Brasil, alguns hospitais já iniciaram o uso experimental da dieta antes da cirurgia, especialmente com doentes de câncer e queimados, mas ainda não possuem estudos conclusivos sobre os possíveis benefícios. É o caso dos hospitais Albert Einstein e Sírio Libanês. Segundo Constantino Fernandes Júnior, da divisão de prática médica do Einstein, já foi observado que os grandes queimados têm menor taxa de infecção quando submetidos à dieta imunomoduladoras.

O mesmo tem acontecido com doentes com câncer, que adotam a dieta antes da cirurgia. Mas ele observa que ainda é cedo para afirmar que os nutrientes imunomoduladores podem reduzir as taxas de mortalidade e de morbidade. “São necessários mais estudos”. Fernandes Júnior diz que, até o momento, os dados sugerem que a dieta no pré-operatório tem melhores resultados em doenças moderadas. “A sepse severa, por exemplo, está além do alcance de qualquer intervenção nutricional.”

A nutricionista clínica do Sírio Libanês, Daniela Galego, afirma que a nutrição precoce com imunonutrientes têm sido dada a alguns pacientes (especialmente os com sérios problemas gastrointestinais, câncer, queimaduras graves, politraumas e problemas respiratórios) 72 horas da cirurgia. “A idéia é tentar suprir precocemente esse paciente daquilo que vai necessitar no pós-cirúrgico. Os resultados têm sido muito bons”, avalia.

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Plano alimentar equilibrado também pode melhorar resistência

Um plano alimentar pessoal e equilibrado, à base de alimentos consumidos no dia-a-dia, também pode aumentar a resistência imunológica e reduzir complicações pós-operatórias. A avaliação é do médico nutrólogo Edson Credidio, diretor da Abram (Associação Brasileira de Nutrologia).

A premissa é que as substâncias presentes nos alimentos regulam as funções metabólicas. Mas em vez de se entupir de alimentos saudáveis, é necessário estudar o metabolismo de cada paciente e prescrever alimentos necessários ao reequilíbrio daquele organismo específico.

Segundo Credidio, a dieta imunomoduladora composta por alimentos funcionais tem uma eficácia significativa e é bem mais barata para o paciente do que a dieta industrializada. Ele defende que ela seja iniciada um mês antes da cirurgia. O médico diz que a dieta é indicada para todo paciente e para todo tipo de cirurgia.

“Da extração dentária até uma cirurgia de grande porte. O paciente bem nutrido responderá com muita segurança ao ato cirúrgico que for submetido.” Ele refuta o argumento de que, para a prevenção das complicações pós-cirúrgicas, a dieta à base de alimentos não consegue os benefícios por não ter a quantidade de nutrientes necessária. “Não consegue quando não se tem o conhecimento.” Segundo ele, a dificuldade é que a nutrição clínica funcional não faz parte do currículo das escolas médicas.

Para ele, a dieta imunomoduladora industrializada é necessária em casos de internação hospitalar de urgência, dificuldade de deglutição, pacientes com grandes queimaduras, em casos de coma. Por exemplo, os ácidos fenólicos, presentes em alimentos como a cenoura, o tomate, a berinjela, o pimentão, as frutas cítricas, o brócolis, entre outros, têm ação na prevenção do câncer e são antisépticos e antioxidantes.

Os ácidos a-linolênicos estimulam o sistema imunológico e reduz as inflamações. São encontrados em óleos de linhaça, soja, nozes e amêndoas. Uma nova área da nutrição - a nutrição clínica funcional- vem se especializando em trabalhar com esses e outros alimentos para prevenir e auxiliar no tratamento de doenças. Evitar criar falsas ilusões, aliás, é uma das preocupações dos profissionais que lidam com alimentos funcionais. “Você nunca pode dizer que um alimento cura doenças. Até pela legislação brasileira, é condenado falar em cura. Os alimentos funcionais podem reduzir o risco de doenças, mas não fazem milagre”, alerta Jocelem Salgado, presidente da Sociedade Brasileira de Alimentos Funcionais.

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