Na carteira de trabalho, eles são dentistas, motoristas, psicólogos, professores, militares; na alma, todos são atores. Este talento encoberto, adiado ou reprimido foi desenvolvido com entusiasmo pelo dramaturgo Paulo Neves que, após seis meses de trabalho, mostra ao público o resultado dos esforços e alegrias acumulados com a peça “Cenas Brasileiras +2”, que será apresentada nesta quinta-feira no Teatro Municipal Celina Lourdes Alves Neves.
Na voz do dramaturgo, a emoção em ser co-autor do sonho de cada um dos envolvidos. “Estou nas nuvens por ver essas pessoas sonhando! Depois de 39 anos de trabalho, estou realmente empolgado com o que estou fazendo”, exalta-se Neves.
A idéia do projeto começou a ser fomentada há dois anos, depois de tanto assistir à mesma cena. “Quando alguns pais me traziam os filhos para fazer aulas de teatro, eu notava que, na verdade, eram eles quem gostariam de estar ali”, lembra o dramaturgo.
Esses pais se somaram a outras pessoas de diferentes idades que, por motivos diversos, não puderam subir ao palco quando jovens e seguiram outros rumos. Mais maduros e consolidados profissionalmente, essas pessoas nem mais cogitavam o teatro até surgir o “Otimidade”.
“Em primeiro lugar, idealizei um curso que pudesse ser realizado por pessoas atarefadas. Depois, pensei no nome, de forma que não tivesse nenhum vínculo com a palavra terceira idade. Porque, infelizmente, em nosso País, estar na terceira idade é visto como a mais periférica das periferias”, lamenta Neves. Em abril o projeto foi lançado e logo surgiram os primeiros interessados. “Eu deixei bem claro a todos: vamos negociar um percurso de oito meses, mas não vamos negociar o sonho de vocês”, lembra o diretor. No mesmo mês foi fechada a primeira turma com 20 alunos, de 30 a 63 anos. Desses, três desistiram por conta de compromissos profissionais e 17 permaneceram até o fim do módulo.