Brasília - No momento em que analisa mudanças em seu ministério, o presidente Lula deixou um “conselho” aos governadores eleitos, muitos para o primeiro mandato: “Convidar alguém para ocupar um cargo é muito fácil. Tirar alguém é muito difícil”. Lula perdeu os principais colaboradores que deixaram o governo envolvidos em denúncias de fraudes. Deixaram seu governo, sempre “a pedido”, mas forçados pela realidade, companheiros de décadas, como José Dirceu e Antônio Palocci.
Dirceu foi acusado de “chefiar” o mensalão e Palocci teria participado da articulação para quebrar ilegalmente o sigilo de um caseiro que lhe fizera acusações. “Nessa hora, não tem relação de amigo, nessa hora é relação de chefe de Estado”, disse Lula. “A gente tem de convidar as pessoas mais qualificadas (...). Ao invés de procurar um amigo, procurem aquele que está esperando uma chance.” Lula disse que a montagem “é 50% do sucesso do governo”.
O petista orientou os governadores a encontrar “os gênios” da máquina pública, que, na sua opinião, são tratados “de forma secundária” no país. “Aprendi uma lição. A máquina pública, quanto mais eficiente ela for, mais fácil será para governar.” O governo Lula recebeu críticas, especialmente no começo, justamente porque o PT indicou filiados para muitos postos que antes eram ocupados por técnicos. Depois de ver boa parte de seu primeiro escalão devastada por denúncias, Lula nomeou técnicos para postos-chave.
A principal expoente dessa mudança é a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, que ganhou poder pela capacidade gerencial. Pessoas próximas a Lula reconheceram que o presidente se referia a Dirceu e a Palocci quando falou dos “amigos”. Além destes, na campanha Lula viu outros companheiros de décadas envolvidos em escândalos, como Jorge Lorenzetti, acusado de ter articulado a compra de dossiê antitucano.
O governador eleito da Bahia, Jaques Wagner, rejeitou a análise de que Lula tenha reconhecido erros no primeiro mandato. “Não é mea-culpa. Mas é mais difícil se despedir de um amigo do que de um profissional”, disse Wagner, que é ex-ministro. A dificuldade de Lula em demitir amigos é conhecida. Reservadamente, ele próprio já admitiu que demorou demais para afastar Dirceu, o que depois acabou potencializando a crise política.
Lula encerrou o discurso avisando que vai cobrar as combinações feitas. “Se quiserem correr de mim, podem preparar as canelas. Estou fisicamente melhor do que estava no começo de 2002, e vou correr atrás de vocês.”