A crônica é o baile de máscaras do jornalismo. Área onde os manuais de redação guardam silêncio, mais preocupados com os conteúdos mais nobres. Talvez por isso o gênero me atraia, embora me falte o talento daqueles que souberam fazer de pequenos textos, grandes obras primas. O problema é que cansa malhar em ferro frio, com o devido perdão pelo lugar-comum. A gente chega à conclusão da inutilidade de ficar abordando as tragédias da vida em sociedade e as mazelas de quem deveria cuidar do País, antes de cuidar de si. Melhor abordar superfluidades como a publicada pelo Times sobre o multimilionário Donald Trump. O homem detesta apertos de mão, segundo confidenciou ao repórter. “Sei lá onde o sujeito colocou as mãos”. Boa tarde, para ele, tem que ser verbal e à distância.
De minha parte, não tenho essa pretensão asséptica do Trump e muito menos o seu dinheiro. Aperto mãos sem constrangimento. Beijo as mulheres quando oferecem o rosto. Até me permito beijar alguns amigos aos quais admiro ou considero. Costume francês, mas reservado só aos íntimos. Já os russos beijam na boca. Se for uma bailarina do Bolshoi, aceito. Se for o Putin, estou fora. Os orientais ficam na reverência com a cabeça. Quanto mais importante o cidadão cumprimentado, mais se verga a coluna.
Quando fui ao Japão passei vergonha porque não levei cartões de visita. Após o leve aceno com a cabeça, próprio para insignificantes como eu, lá vinha o cartãozinho em japonês de um lado e em inglês no verso. O apresentando ficava a espera da minha retribuição. Nunca me preocupei com esse apetrecho gráfico. Automatizado pelo hábito tupiniquim, acabava agarrando a mão estendida. Só me dava conta da gafe ao perceber o trincar de dentes do oponente. Arrgh.
A matéria da seção de comportamento humano da Times diz que o ator Tom Cruise abre a torneira com toalha de papel, joga água com sabonete no metal e só depois se arrisca a pôr a mão. O mesmo procedimento (da toalha de papel) vale para trincos e maçanetas. Procede. Li em algum lugar que os lugares mais sujos do mundo são os banheiros de avião. Voam 24 horas seguidas e os locais reservados às necessidades fisiológicas são pequenos e mal desinfetados. Centros de transmissão de doenças raras. Tem sentido. Durante uma viagem aérea, sentado na última poltrona dos fundos, ouvi gritos que partiam do banheiro. A aeromoça socorreu uma gorda senhora que dera a descarga ainda sentada no vaso sanitário. A coisa funciona por sucção provocada por vácuo aerodinâmico. É violento. Imagino a estranha sensação de ter o intestino quase sugado das entranhas.
O “Dr. Bactéria” recomenda não tomar Coca-Cola com cubos de gelo. O refrigerante pode ser saudável, mas o gelo é de água de procedência duvidosa. E as salsichas? Dizem que é feita do que sobra do boi além de outras porcarias para dar liga. Até papelão. Lingüiça deve ser muito bem passada para nos livrar das salmonelas, que já mataram muita gente.
Pensando bem, se for atentar para tantos cuidados sanitários, a gente não vive. Tenho um amigo detalhista, que usa termômetro para saber se o vinho está a exatos 15 graus, levemente resfriado. Abre a garrafa 15 minutos antes de servir a bebida, “para que o vinho possa respirar” e só o toma em copázios de pés altíssimos, segurando pela base “para não esquentar”. Bah!
Entendeu a vantagem da crônica? A gente vai escrevendo sobre coisas escancaradamente banais e nem de longe se compromete. Mais ou menos por aí que o general Perón, quando governava a Argentina, aconselhava a primeira-dama Evita a se dirigir aos descamisados: “Fale muito de generalidades, pouco sobre os outros e nada sobre você”. Deve ter dado certo porque até hoje os hermanitos choram a perda do mito.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC