Internacional

Isabel Allende agora ataca de Zorro

Por Sylvia Colombo | Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min

É característico da chamada “pulp fiction” emprestar seus personagens a diferentes releituras e suportes. Com Zorro nunca foi diferente. Desde que o mascarado justiceiro surgiu pelas mãos de Johnston McCully, em 1919, no livro “A Maldição de Capistrano”, sua capa escura e máscara típicas já foram vestidas por muitos no cinema e na TV, além de invadirem os quadrinhos e até os videogames. Mas se até aqui toda essa vulgarização foi positiva para o personagem, desta vez Zorro está seriamente em perigo.

Cansada de escrever best-sellers “para mulheres” - também aproveitando o crescente mercado hispânico dos EUA -, a escritora chilena Isabel Allende agora investe no público adolescente (é sempre bom cultivar para o futuro). Em “Zorro - Começa a Lenda” (Editora Bertrand Brasil), ela romanceia, de forma piegas e politicamente correta, a lendária história de Diego de la Vega, o filho de um proprietário de terras espanhol e uma indígena, que de modo quixotesco, pregava a justiça a seu modo (e deixava a marca “Z” feita pela sua espada no peito dos inimigos), na Califórnia do fim do século 18 (quando a região era colônia espanhola).

Em entrevista por e-mail, Allende, 64 anos, disse que não estava interessada no personagem até que a Zorro Productions (que detém os direitos sobre o personagem) a procurou para que ela escrevesse um romance sobre o herói. “Eles acharam que eu faria um bom trabalho porque já tinha escrito aventuras históricas. Além disso, eu conheço a cultura hispânica muito bem.”

Por conhecer a cultura hispânica, Allende provavelmente deve estar se referindo ao fato de morar há quase 20 anos em San Rafael, na Califórnia, e de ter tentado emular Gabriel García Márquez no fraquíssimo “A Casa dos Espíritos”, uma mistura de realismo mágico com enredo de novela da Glória Pérez.

“Zorro” é narrado a partir do ponto de vista de uma mulher, Isabel de Romeu. “Contar a história por meio da voz de uma jovem, que poderia ver Zorro com humor, gentileza e admiração, me ajudou a acertar o tom que queria para o herói. Ele tem qualidades, mas também é arrogante, histriônico e impulsivo.” Só faltou dizer que a tal “perspectiva feminina” ajudou Allende a se livrar de um problema incômodo, o excesso de violência, inevitável no ambiente da lenda, além de manter a conexão com as suas tradicionais leitoras.

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Originalidade

O toque de originalidade que Allende deu à lenda foi transformar o criado indígena de Zorro, Bernardo, em irmão de leite do herói. “Nas outras adaptações, Bernardo era apenas o servente. Era tratado de forma muito racista. Por isso, decidi lhe dar orgulho e dignidade.”

Allende mostra, aqui, que também ela pode deixar sua marca de justiceira... Uma das escritoras latino-americanas de mais sucesso hoje, Allende já vendeu mais de 35 milhões de cópias de seus romances - “A Casa dos Espíritos” (1982) e “De Amor e de Sombras” (1984) estão entre os mais famosos. No Brasil, foram mais de 400 mil volumes. Nascida no Peru, de família chilena -Salvador Allende era seu tio-avô -, Allende não gosta de fazer comentários sobre política, mas contou que gostou muito da eleição da socialista Michele Bachelet no Chile.

“Ela nomeou 50% de mulheres em cada nível do governo. Pela primeira vez na história, há energia feminina na administração do país. Espero que isso faça diferença.” Se não fizer, os chilenos já sabem, ainda podem apelar a seu Zorro de saias...

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