Internacional

Reeleito, Chávez fala em mudanças

Por Sérgio Dávila | Folhapress
| Tempo de leitura: 5 min

Caracas - Apesar do discurso antiamericano que continua fazendo para a platéia interna, o presidente venezuelano Hugo Chávez, reeleito ontem para mais seis anos de governo com mais de 60% dos votos, dá mostras de que estaria aberto a uma reaproximação política com os EUA. O país ao norte tem se mostrado receptivo; por orientação da secretária de Estado, Condoleezza Rice, seu secretário mais graduado para a região amenizou o discurso oficial.

Ao falar aos milhares de militantes que se reuniam debaixo de uma chuva fina na madrugada de ontem, no Balcão do Povo do Palácio Miraflores, no centro de Caracas, Hugo Chávez cumprimentou-os por “outra lição de dignidade no império norte-americano”. “É outra derrota para o império de Mister Danger (senhor perigo), que pretende dominar o mundo”, disse, se referindo ao presidente dos EUA, George W. Bush.

Ao votar na manhã de anteontem, porém, havia dito aos jornalistas estrangeiros em Caracas que via como “bons sinais” as declarações que o subsecretário de Estado norte-americano para a América Latina, Thomas Shannon, havia dado reconhecendo que a Venezuela funcionava num arcabouço democrático: “Ele também disse que quer estabelecer boas relações com o novo governo de Nicarágua e do Equador, que são de esquerda”.

Realmente, em entrevista ao jornal “El País”, Shannon havia dito que a luta política que acontece na Venezuela “é conduzida por meio das instituições democráticas” e “dentro de um contexto democrático”.

Ontem, em Londres, Shannon voltou ao assunto, já após a vitória de Chávez, que ele qualificou de “impressionante”. “Nós não queremos uma relação de confronto com a Venezuela, pelo contrário”, disse. “Sempre buscamos uma maneira de aprofundar o diálogo com o governo do presidente Chávez e nossa esperança é que, talvez, nesse momento, ele se mostre mais interessado nisso.” Diria ainda que a Venezuela “é um país democrático, uma democracia com muitos desafios, metas e problemas, mas um país democrático”.

É uma mudança de discurso importante para o país que teve participação no golpe de Estado que tentou derrubar Chávez em 2002. Shannon tem parte do mérito. Comparado com seus antecessores, Otto Reich e Roger Noriega, o diplomata de 48 anos é suave.

A aproximação se dá por duas razões, interligadas. A mais importante: a Venezuela é o quarto maior fornecedor de petróleo dos EUA, que compra 50% do produto exportado pelo país. As reformas que Chávez promete fazer, reenergizado pelo novo mandato, podem complicar a relação das empresas norte-americanas de petróleo com o país.

A segunda razão é que tanto o discurso antiamericano de Chávez quanto o pouco caso que os EUA vêm mostrando pela América Latina podem custar a região ao país. Nos últimos meses, cinco esquerdistas foram eleitos ou reeleitos no continente. Embora nem todos rezem pela cartilha chavista, é inegável a tendência. “A Venezuela está pronta para negociar”, disse Larry Birns, diretor do Conselho de Assuntos Hemisféricos, com sede em Washington. “Mas essa administração nunca soube distinguir entre o latido de Chávez e a mordida de Chávez.”

Para Birns, se a Casa Branca começa a mostrar mais jogo de cintura para negociar com Síria e Irã, não faz sentido deixar Chávez de fora. “Ele aceitaria o convite”, afirmou.

Hugo Chávez vem dando mostras nesse sentido. Populações de baixa renda de alguns Estados norte-americanos recebem energia subsidiada da filial norte-americana da estatal PDVSA. Depois do desastre do Katrina, o dirigente ofereceu ajuda humanitária às vítimas.

Em sua primeira viagem ao Exterior como presidente reeleito, Hugo Chávez deve se encontrar amanhã, no Brasil, com seu colega Luiz Inácio Lula da Silva.

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Esquerdistas dominam ano eleitoral na América Latina

Vitórias da esquerda/centro-esquerda:

• VENEZUELA - Com 78% dos votos contados, Chávez tinha 61% contra 38% do rival Manuel Rosales, governador de um Estado produtor de petróleo.

• BRASIL - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito em outubro com 60,8% dos votos ante os 39,2% de Geraldo Alckmin, do PSDB.

• NICARÁGUA - Daniel Ortega, ex-líder da guerrilha sandinista cujo regime marxista na década de 1980 foi atribulado por uma guerra civil estimulada pelos Estados Unidos, venceu a disputa pela Presidência em novembro contra o conservador Eduardo Montealegre, com 38% a 29%.

• BOLÍVIA - Eleito em dezembro do ano passado, Evo Morales conquistou a Presidência com 54,2% dos votos contra 28,6% do ex-presidente Jorge Quiroga e começou a governar em janeiro deste ano.

• CHILE - Michelle Bachelet, socialista em uma coalizão de centro-esquerda, tornou-se a primeira mulher a liderar o país após vencer em janeiro com 53,5% sobre o candidato da oposição Sebastian Pinera, que ficou com 46,5%.

• PERU - O presidente Alan García superou Ollanta Humala por 52,6% a 47,4%. García estava mais ao centro que seu rival, mas tem credenciais esquerdistas.

• EQUADOR - Em novembro, Rafael Correa venceu com cerca de 56,6% da votação enquanto o conservador Alvaro Noboa ficou com 43,3%, segundo autoridades eleitorais.

Vitórias conservadoras:

• MÉXICO - Felipe Calderón venceu por estreita margem a eleição em julho por 35,89% a 35,33% sobre o esquerdista Andrés Manuel López Obrador em uma votação que reforçou as divisões entre as classes sociais.

• COLÔMBIA - Álvaro Uribe obteve 62% da votação em 28 de maio contra 22% do rival mais próximo, Carlos Gaviria.

• GUIANA - O presidente Bharrat Jagdeo, defensor do livre mercado, venceu a reeleição na antiga colônia britânica em agosto passado. Jagdeo teve 54,6% dos votos. Robert Corbin, rival que acusou Jagdeo de ignorar questões afro-guianesas e de ser tolerante com a corrupção, ficou com 34%.

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