Brasília - No que vinha sendo considerado uma prévia da disputa pela Presidência da Câmara dos Deputados, e o primeiro teste da chamada “coalizão” de apoio a Luiz Inácio Lula da Silva, o governo foi derrotado ontem na votação secreta que escolheu o novo ministro do Tribunal de Contas da União (TCU). O pefelista Aroldo Cedraz (BA) bateu por 172 votos a 148 o petista Paulo Delgado (MG). Os dois são deputados federais que não se reelegeram. Estava em jogo uma vaga do TCU cuja indicação cabe à Câmara.
O nome de Cedraz ainda terá de ser submetido ao Senado. A oposição ganhou mesmo se dividindo, e o governo perdeu mesmo se unindo. Além de Cedraz, a oposição lançou as candidaturas do tucano Gonzaga Mota (CE), que ficou com 50 votos, e do pedetista Ademir Camilo (MG), que obteve 20. Já a base governista, antevendo um desastre, armou uma “prévia” entre seus candidatos, cujo resultado foi conhecido ontem. Venceu Delgado, o que provocou a retirada da disputa de Osmar Serraglio (PMDB-PR), Luiz Antônio Fleury (PTB-SP), José Antônio Almeida (PSB) e Mozart Vianna, funcionário da Mesa Diretora, que havia sido indicado pelo PSC. É a segunda vez consecutiva que o governo tenta emplacar um ministro do TCU e não consegue.
No ano passado, o petista José Pimentel (CE) perdeu para Augusto Nardes (PP-RS). “Não foi uma derrota do candidato Delgado, foi uma derrota do governo, que, através de uma estratégia equivocada, tentou intervir em decisão da Câmara”, disse o líder do PFL, Rodrigo Maia. O TCU vem sendo uma pedra no sapato do presidente Lula, frequentemente divulgando relatórios críticos a sua gestão. Cabe ainda ao TCU aprovar ou não as contas do governo. Cedraz manterá esse padrão.
Aos 55 anos, médico veterinário, ele está no quarto mandato de deputado federal, praticamente sempre no PFL -teve apenas uma passagem rápida pelo PRN, legenda que foi do ex-presidente Fernando Collor. Homem de confiança do senador Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA), foi secretário de Indústria e Comércio no governo pefelista da Bahia. A votação acendeu a luz amarela na base governista.
A baixa votação de Delgado significa que ele teve poucos votos em bancadas como a do PMDB, que vinha prometendo apoio total ao governo a partir de agora. Cedraz teve votos ainda no PP e no PR (ex-PL), também da base aliada. Essa “traição” poderá se repetir na bem mais importante disputa pela Câmara, em fevereiro.
Parte do PT minimizou o fiasco: “Não houve compromisso de alguns partidos, mas o governo não sai derrotado, pois não tinha se manifestado”, disse Fernando Ferro (PT-PE). Mais realista, Paulo Rubem (PT-PE) observou: “A derrota é a repetição de outras que já tivemos. Demonstra nossa condição de aprendizes. Já começamos perdendo novamente”.