Há alguns dias, fiquei estarrecido ao ler neste prestigioso jornal duas matérias que demonstram o total desconhecimento de algumas pessoas com relação à biologia e ao comportamento de animais silvestres, bem como o desrespeito à legislação vigente, no que diz respeito à proteção de nossa fauna.
Aguardei alguns dias para me manifestar, certo de que iria ler na Tribuna do Leitor uma enxurrada de manifestações contrárias ao que foi relatado. Mas qual não foi a minha decepção ao perceber que as pessoas ainda acham que serpentes não têm direito à vida. Falo sobre as matérias referentes às sucuris (Eunectes murinus) que vivem nos córregos da vizinha cidade de Iacanga, e estão sendo vítimas da caça ilegal, inclusive de quem trabalhou por muitos anos com a obrigação de garantir a defesa de nossa fauna.
Chegariam a ser hilariantes, se não fossem tão cruéis e burras, as histórias que pudemos ler sobre o grande perigo que estes animais podem provocar aos seres humanos. Os relatos que se ouvem sobre pessoas predadas (comidas) por estas serpentes são sempre do tipo “ouvi falar, me disseram, não sei quem viu...” Elas nunca são relatadas na primeira pessoa (eu vi), pois, na sua quase totalidade, fazem parte do imaginário e das lendas que existem sobre esta espécie.
Agora, que as sucuris comem cachorro, ganso, pato, etc, não tenham dúvida que comem, pois elas são incapazes de diferenciar estes animais domésticos de uma capivara, um paturi ou uma garça. Só que temos que levar em conta que o ambiente de uma sucuri é a água e os seus arredores. Áreas essas denominadas de Áreas de Preservação Permanente (APAs), que podem variar de 30 a 100 metros das margens dos cursos d’água, e que são protegidas pelo Código Florestal, onde ninguém pode, sem a autorização do órgão competente, desmatar, implantar lavouras ou criação de animais.
Se essa legislação estivesse sendo cumprida, as sucuris estariam comendo somente o seu alimento natural e não os animais domésticos ali introduzidos em desconformidade a legislação vigente. Portanto, da mesma maneira que não matamos um cachorro quando ele caça um lagarto, ou um gato quando mata um pássaro, não podemos e não devemos sacrificar animais selvagens que estão em seu ambiente natural. Que sejam punidos aqueles que invadem as áreas protegidas.
O autor, Luiz Antonio da Silva Pires, é zootecnista