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O juro e o câmbio


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A enxurrada de índices, projeções e opiniões dos últimos dias, confirmando que o crescimento do PIB tupiniquim não ultrapassará 3%, está azucrinando a cabeça do ministro Guido Mantega que queimou a língua várias vezes em suas previsões. Há meses, os que são do ramo, chamam a atenção do governo para o quadro raquítico de crescimento recebendo como resposta uma parolagem digna de vendedor de geladeira no Pólo Norte. Com as notícias que 2,86% será o avanço do PIB, presidente e ministro passaram a dizer que 2006 já era, agora estão “focados” em 2007.

Pois bem, quais são os planos do País para 2007? Não precisamos ser uma China que cresce 10% a.a., há algum tempo. Estabeleceram para o próximo ano uma meta mais modesta, crescer 9,5%. Aqui ficaríamos contentes com algo em torno de 5 ou 6%, o suficiente para em uma geração, 25 anos, nossos netos e bisnetos vislumbrarem um futuro. Saímos de uma campanha para a eleição do máximo mandatário do País sem nenhuma proposta concreta de crescimento. Continuamos sem estratégia de nação. Governo e oposição não foram convincentes sobre o tema em momento algum.

Não foi elaborado nenhum plano tipo Grande Prêmio “5% de crescimento do PIB” para satisfazer a vontade presidencial. Assim, o vozerio das tribunas se mistura às informações provenientes das cocheiras ministeriais. Juro e câmbio é a dobradinha preferida pelos economistas para ajudar o Brasil a vencer esse GP. Embora o pagamento do juro das contas públicas seja apontado unanimemente (menos pelos banqueiros, óbvio) como o grande vilão do crescimento, ao lado do câmbio (entrave maior para o aumento das nossas exportações), há controvérsias. Os apostadores que escolheram essa dupla e outros que fazem sua fezinha em animais diferentes não concordam que o “espetáculo do crescimento” dependa apenas dessas duas éguas. É preciso trabalhar as éguas da burocracia, da carga fiscal e tributária, parte das leis trabalhistas que oneram a folha de pagamento e nada têm a ver com os direitos dos trabalhadores, e finalmente, a previdência em cujo pasto se refestelam inúmeras zebras. Os economistas apostadores dizem que é preciso despertar nos empresários, porque sem eles as éguas se tornam “cavalos paraguaios” que largam bem e não têm fôlego para a chegada, o “animal spirit”. Esse “espírito animal” pode ser traduzido como vontade, ânimo, disposição, etc. Será que sem um plano e, portanto, sem horizonte eles estarão dispostos a investir? O Brasil detêm alguns índices bons: a inflação está sob controle e é baixa (3,2%); as reservas são as maiores da nossa história, US$ 80 bilhões; as “commodities” botocudas estão com bons preços, algumas coisas como risco-país, entrada de recursos externos para investimento, etc., estão razoáveis. Mas, temos pontos negativos cruciais como as mais altas taxas de juro do planeta que este ano drenaram o montante de R$ 160 bilhões que poderiam ter irrigado o sistema produtivo e o investimento social; um déficit nominal que alimenta a dívida pública a razão de 3 a 4% do PIB anualmente, forçando um superávit primário das contas públicas da ordem de no mínimo 4,25% desse mesmo PIB; carga tributária abusiva e baixa taxa de investimento. O quadro que aí está pode evoluir positivamente ou desandar num piscar de olho, é para profissionais reconhecidamente competentes. Portanto, é preciso que governo e sociedade através de suas mais diferentes representações discutam o rumo a ser tomado. O presidente Lula amealhou um capital político expressivo, mas como nem sempre urna e teoria econômica andam juntas será necessário usar a forca do mandato renovado para fazer o que disse ao visitar, recentemente, seus companheiros metalúrgicos: “Companheiros, peçam o que quiserem, só vou dar o que puder”. Quem mais precisa ouvir essas sábias palavras são o Meirelles e os banqueiros: peçam os juros e taxa de câmbio que quiserem, só será dado aquilo que permita ao País crescer com vigor suficiente para atender as demandas sociais, resguardar a dignidade de seu povo e manter inabalável sua soberania. Começar pelo juro e câmbio é um bom começo.

O autor, Tidei de Lima, é engenheiro civil, deputado federal 1978/1992, secretário da Agricultura 1987/88 e prefeito de Bauru 1993/1996

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