Quando adolescente e depois universitário, acreditava que poderia fazer diferença e alterar o “status quo” agindo internamente ao sistema, sem revolução armada. Vivia-se na época a fase cruel da ditadura militar, os anos de chumbo, e passei a ter uma militância política, de início estudantil, depois através do MDB. Participei da primeira passeata contra a ditadura a sair dos muros da USP em SãoPaulo, participei da eleição do primeiro governador não biônico pós-ditadura, participei da campanha das diretas já e muito mais. Acreditava que como técnico atuando politicamente poderia colher resultados e acho que consegui um naco significativo de minhas pretensões. Com isso tudo, acho que viciei em pensar e falar do assunto, vício que permanece mesmo estando já há dez anos longe da política e me dedicando exclusivamente à iniciativa privada, adepto, agora, da arriscada vida de empresário.
Agora que a política virou uma massa amorfa (não vou falar do cheiro), sem propósito (que não a locupletação) ou direcionamento (que não a permanência no poder), resolvi deixar o vício, mas estou encontrando dificuldade. Tanto que meus escritos nesta coluna sempre resvalam para esse assunto. Decidi então, à semelhança do AAA, fundar a APA: “Associação dos Politicólotras Anônimos”, da qual sou, por enquanto, o único membro, mas já estou plagiando o bordão do AAA, e repito sempre que acordo: “Só por hoje não vou falar ou escrever sobre política.”
Então, vou falar de auto-ajuda. Na verdade, não sei se estou qualificado para esse tema, pois nunca passei da metade de nenhum livro de auto-ajuda. Acho todos muito enfadonhos na tentativa de se venderem como a solução de todos os problemas do leitor. Minha opinião, pegando carona no dito popular, é que “se auto ajuda quem cedo madruga e fica acordado para o mundo a sua volta”. Outro dia, participando de uma mesa de negociações, ouvi um empresário norte-americano, ao iniciar a explicação de um projeto, informar que descreveria primeiro o empreendimento e a seguir, seu plano de saída para o mesmo. Questionado se não acreditava no projeto para já ter um plano de saída, ele disse que confiava muito, porem nunca entrava em nada sem um plano de saída, pois mesmo de um negócio bem sucedido é necessário sair-se planejadamente, e nenhum empreendimento é definitivo, nem nós somos imortais. As negociações em torno do empreendimento ainda se arrastam nos dias de hoje e não creio que vinguem, entretanto, já obtive meu lucro pessoal: é importante ter um plano de saída para tudo que se faz. Acho até que já praticava isso de forma inconsciente, mas ao fazê-lo conscientemente poderei ser mais eficiente.
Fico pensando quanto ter um plano de saída pode ser importante para muita gente: o casal às vésperas do casamento, o jovem entrando na universidade, o formando iniciando seu primeiro emprego, o técnico frente à decisão importante, o trabalhador em via de aposentar-se. Imagine se o pessoal lá de Brasília parasse de pensar que vai ficar mamando nas tetas do estado para sempre e preparasse seu plano de saída. Poderia descobrir que existe vida e felicidade fora do poder e toda a nação seria beneficiada. Droga... falei de política. Oh, vício danado! Não faz mal. Amanhã acordo repetindo meu mantra da APA: só por hoje não falarei ou escreverei sobre política.
O autor, Eric-Édir Fabris, é engenheiro civil e colaborador da coluna Opinião - eric@mstecnologia.com.br