O vergonhoso aumento de 91% para deputados e senadores, que elevou os salários dos parlamentares de R$ 12,8 mil para R$ 24,5 mil, gerou protestos em todo o País. Sindicatos, entidades e associações de classe se mobilizam para protestar contra o reajuste, arquitetado e aprovado por líderes de praticamente todos os partidos - apenas o PSOL foi contra.
Em Bauru, uma dona de casa decidiu que alguém precisava fazer alguma coisa a respeito, já que as manifestações contrárias parecem não ter cativado deputados e senadores a rever o aumento abusivo. Aline de Arruda Dutra, 29 anos, não quis esperar pelas festas de fim de ano e resolveu se manifestar. Conseguiu o apoio de outras pessoas e fez um protesto no Calçadão da Batista, no último sábado.
Depois do protesto, que reuniu cerca de dez pessoas, Aline ficou ainda mais inconformada com a passividade das pessoas em aceitar a situação de braços cruzados. Chegou a ouvir de um senhor, na praça Rui Barbosa, que a culpa era do povo, que elegeu os parlamentares, mas não desanimou. “Não é porque votamos neles que eles vão fazer o que quiserem. Eles estão lá para representar o povo, não para se representarem”, disse.
A dona de casa iria fazer outro protesto ontem, mas decidiu deixar para janeiro, depois que passarem as festas de fim de ano. “O brasileiro ainda não acordou, está preocupado em gastar o décimo terceiro salário, mas quando chegar janeiro e os impostos começarem a chegar, as pessoas vão tomar consciência do absurdo que é este aumento”, ressaltou. “Na Itália, os deputados podem contratar apenas três funcionários cada. No Brasil, são 32 funcionários por deputado. É um absurdo”, completou.
A idéia de se manifestar contra os abusos praticados em Brasília surgiu quando começaram os escândalos do mensalão. O aumento nos salários dos deputados foi a gota d’água para a paciência de Aline. “É tanta baixaria, tanta safadeza, que não dá para não se indignar”, frisou. “Como posso ensinar meu filho a ser honesto com tanta coisa errada acontecendo, sem que ninguém faça nada?”, questionou.
CNBB
A Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou nota, na última sexta-feira, na qual questiona o reajuste de 91% nos salários de deputados e senadores. Na nota, intitulada “O que devemos fazer?”, o presidente da CNBB, Cardeal Geraldo Majella Agnelo, lembra a diferença gritante entre o valor dos vencimentos dos parlamentares a partir de janeiro de 2007, que será de R$ 24,5 mil, e o salário mínimo, modestos R$ 350,00.
“Esta decisão dos membros do Parlamento leva a crescer o fosso entre os legisladores e o povo. Acontece que eles foram eleitos pelo povo para o poder-serviço. Um salário de R$ 24,5 mil, diante do salário mínimo de apenas R$ 350,00, sinaliza mais interesses particulares do que a defesa da Justiça ou gesto de partilha em solidariedade à população empobrecida. O que devemos fazer hoje?”, diz a nota
A CNBB também afirma que a reforma política deve ser feita com urgência. “O fato do aumento do salário dos parlamentares nos convoca a um empenho ainda maior para uma urgente reforma política. Precisamos de instrumentos legais para inibir decisões como esta, que obscurecem a dignidade da política”.