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Ditadores


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Santo Antonio da Figueira, hoje Guarapuã, era e continua sendo distrito da acolhedora Dois Córregos. É uma pequena comunidade muito agradável, todo mundo conhece todo mundo. Ali, morou durante décadas boa parte da família Tidei, dentre eles, Setímio Isidro Tidei, sétimo filho dos imigrantes Giovanni (italiano), e Francisca (espanhola). Suas duas paixões eram a política e o Corinthians, do qual era sócio de carteirinha. Não admitia vestimenta verde em si e nos membros de sua família; proibia saladas de verduras; ninguém podia tomar sorvete de hortelã, enfim, tudo que continha a cor verde era vedado. Homem sério, firme, transparente em suas posições, viu a revolução de 1924, participou das revoluções de 30 e de 32 quando, como voluntário, esteve no famoso trem blindado. Honestidade era sua ideologia. Elogiava o fascista Benito Mussolini, ditador de 1924 a 1943, que teria acabado com os ladrões e a corrupção na Itália.

Ao mesmo tempo, demonstrava simpatia e reconhecia em Josef Stalin, líder soviético plenipotenciário de 1928 a 1953, o grande estadista responsável pela formação da União Soviética (hoje extinta), considerada durante décadas a segunda potência mundial. Como ele, milhões de pessoas continuam acreditando com a maior boa-fé que os regimes ditatoriais têm a virtude do combate à corrupção. Trágica ilusão. Augusto Pinochet, ditador chileno de 1973 a 1990, que chamado por Satanás dias atrás não deixou saudade, é a maior prova disso. Suas contas milionárias descobertas fora do Chile são como as de outros déspotas que saem de seus feudos com as burras cheias confirmando, assim, que ditadura não é atestado de idoneidade para país nenhum. Se fosse, o preço a ser pago não poderia ser o da liberdade, muito menos o da vida.

Mussolini, Stalin e Pinochet foram ditadores sanguinários, pouco interessa se de esquerda ou de direita, eliminaram companheiros de partido e de farda, impuseram aos seus povos suas vontades através do tacão do arbítrio. O Chile se salvou não pela capacidade do carrasco em decapitar os males que, por ventura, impunham um crescimento medíocre ao país, mas porque tinha base educacional e cultural centenária. Durante os primeiros dez anos da ditadura pinochetista, o PIB chileno caiu 16%. Nos sete anos restantes, quando o regime já dava sinais de enfraquecimento, às circunstâncias favoráveis do preço do cobre, principal produto de exportação, permitiu que o país voltasse a andar. Nunca é demais lembrar que, apesar das privatizações acontecidas no Chile, o cobre continua na mão do governo, é monopólio estatal. A recuperação da economia com percentuais de crescimento elevados se deu em cima de um PIB aviltado. O sucesso alcançado ao final da era Pinochet pouco se deve ao ditador, que tentou prolongar seu domínio através das urnas, sendo derrotado. A partir daí, o povo chileno começou a respirar os ares da liberdade ciente de que o crescimento dispensa o arbítrio.

Embora a história registre aos borbotões a falência das ditaduras que em sua esmagadora maioria são sanguinárias e corruptas, sejam elas de reis, imperadores, generais ou bonifrates, há, e sempre haverá, os que acreditam nos regimes de força para resolver os problemas da sociedade. Por estes dias, uma turma de formandos da Escola Preparatória de Cadetes do Exército, de Campinas, escolheu como patrono o falecido ditador brasileiro General Emílio Garrastazu Médici, detentor dos anos mais negros do arbítrio no Brasil, justificando que se tratava de homem público que deixou “exemplos de nobreza de caráter, humildade, honradez e generosidade”. Dessa turma, alguns serão generais comandantes de brigadas, divisões e exércitos de homens e mulheres armados. É bom ficar com um olho no peixe e o outro no gato.

O autor, Tidei de Lima, é ex-prefeito de Bauru e ex-deputado

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